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Carga anticolinérgica

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Carga anticolinérgica
PSIQUIATRIA EM MOVIMENTO · BIBLIOTECA DO ALUNO

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Sumário

Calculadora clínica

Carga anticolinérgica

Soma a carga anticolinérgica de toda a lista do paciente em duas escalas ao mesmo tempo — CALS (CRIDECO, 217 fármacos) e ACB (Aging Brain Care, 99) — e, por dose, em miligramas de difenidramina. Mostra onde as escalas discordam entre si.

CRIDECO/CALS 2022 · ACB 2012 · equivalência anticolinérgica de Badre & Geier, 2025

Carga anticolinérgica cumulativa

Some a carga de toda a lista do paciente em duas escalas ao mesmo tempo — a CALS (CRIDECO, 2022) e a ACB (Aging Brain Care, 2012) — e, para os psicotrópicos com dado publicado, em miligramas de difenidramina. As três leituras aparecem lado a lado, com as discordâncias entre elas destacadas.

Por que duas escalasNão existe padrão-ouro. A revisão sistemática mais recente encontrou 21 escalas, com listas que vão de 27 a 217 fármacos, e 74% dos 25 fármacos de maior pontuação recebendo escores inconsistentes entre elas. Ver as duas ao mesmo tempo mostra onde a estimativa é robusta e onde ela depende de qual régua você pegou.

    220 fármacos das duas escalas. Busca por nome em português, em inglês ou por marca comercial. Inclua o que vem de outras especialidades, a venda livre e os fitoterápicos.

      Nenhum medicamento na lista ainda.

      Exemplos:
      CALS CRIDECO 2022 — limiar ≥ 3 · 217 fármacos
      ACB Aging Brain Care 2012 — limiar ≥ 3 (aplicado como na CRIDECO) · 99 fármacos
      Equivalência unidade de comparação — informe as doses para calcular

      A equivalência é uma unidade de comparação, não uma dose a prescrever nem uma dose de difenidramina que o paciente esteja tomando. Serve para ranquear quem contribui mais dentro da própria lista.

      ⚠️ Estimativa de risco, não medida de exposição. As escalas são construídas por revisão de literatura e consenso de especialistas; nenhuma das duas incorpora a dose, a farmacocinética individual, a função renal e hepática ou a passagem pela barreira hematoencefálica — entre as 21 escalas revisadas, só quatro consideram dose e três consideram penetração no sistema nervoso central. Um escore alto é motivo para revisar a lista, nunca para suspender medicação automaticamente. E reduzir carga anticolinérgica se faz de forma gradual: a retirada abrupta pode causar rebote colinérgico (náusea, insônia, agitação) e, no caso dos antiparkinsonianos, reemergência de sintomas extrapiramidais. Reavaliar a indicação vem antes de suspender.

      Como ler cada uma das três respostas

      CALS — CRIDECO Anticholinergic Load Scale (2022)

      Escala espanhola construída por revisão sistemática, com 217 fármacos, contra 99 da ACB — 118 a mais. (Os autores da CALS falam em “129 a mais” porque contabilizam a ACB como 88 fármacos; a folha de 2012 lista 99 itens, e é essa a contagem usada aqui.) Pontua cada fármaco como potência baixa (1), média (2) ou alta (3); a carga total é a soma. Total ≥ 3 é considerado clinicamente relevante. No estudo original de comparação, com 512 pessoas de 50 a 96 anos com queixa subjetiva de memória, a associação entre carga anticolinérgica e comprometimento cognitivo apareceu quando medida pela CALS, mas não quando medida pela ACB — o que os autores atribuem à cobertura maior de fármacos. Os próprios autores registram que a escala ainda carece de validação independente.

      ACB — Anticholinergic Cognitive Burden Scale (2012)

      A escala mais usada internacionalmente, com 99 fármacos. Pontua 1 (evidência in vitro de antagonismo muscarínico), 2 (evidência de efeito anticolinérgico clínico) ou 3 (pode causar delirium). O material original registra que cada anticolinérgico definido pode aumentar o risco de comprometimento cognitivo em 46% em 6 anos, que cada ponto a mais no total se associa a queda de 0,33 ponto no MEEM em 2 anos, e que cada ponto a mais se correlaciona com aumento de 26% no risco de morte.

      A ACB prevê duas leituras: somar os escores e, separadamente, contar quantos anticolinérgicos “possíveis” (escore 1) e “definidos” (escore 2 ou 3) o paciente usa. O número de 46% em 6 anos se refere a cada anticolinérgico definido nessa contagem, não a cada ponto da soma. O material da ACB não estabelece ponto de corte numérico — o limiar ≥ 3 aqui aplicado é o que o grupo da CRIDECO usou ao comparar as duas escalas.

      Equivalência anticolinérgica — em miligramas de difenidramina

      As duas escalas acima são categóricas e independentes da dose: amitriptilina 10 mg e amitriptilina 150 mg pontuam igual. A equivalência anticolinérgica resolve isso para os psicotrópicos com afinidade M1 publicada: tomando a difenidramina como referência (1 mg = 1), cada fármaco recebe um fator, e 1 mg dele produz efeito anticolinérgico comparável ao de fator mg de difenidramina.

      FármacoAfinidade M1 (nM)Equivalência (mg de difenidramina por mg)
      Benzatropina0,59135,6
      Triexifenidil3,7021,6
      Amitriptilina8,908,99
      Clozapina126,67
      Doxepina233,48
      Olanzapina263,08
      Imipramina461,74
      Nortriptilina531,51
      Clorpromazina711,13
      Paroxetina721,11
      Difenidramina801 (referência)
      Sertralina4270,19
      Loxapina4540,18
      A armadilha do antiparkinsoniano2 mg de benzatropina equivalem a cerca de 271 mg de difenidramina — mais do que 10 mg de olanzapina (31 mg) ou 20 mg de paroxetina (22 mg). Por isso o fármaco prescrito para tratar o efeito extrapiramidal costuma ser a maior fonte de carga da lista quando o antipsicótico em uso tem baixa potência anticolinérgica. Não vale como regra geral: nas doses usuais da própria tabela, clozapina (2000 a 6000 mg equivalentes), amitriptilina (449 a 2697) e clorpromazina (225 a 1127) superam bastante a benzatropina — amitriptilina 50 mg, dose banal para insônia ou dor, já a ultrapassa. Calcule por dose antes de decidir por onde começar. Para o biperideno, o mais usado no Brasil, não há fator publicado: pontua 3 na CALS, não consta da ACB e fica fora do cálculo por dose.

      Os “falsos anticolinérgicos”

      Estes psicotrópicos aparecem nas escalas categóricas — alguns com pontuação 3 — mas o levantamento de afinidade ao receptor M1 os classifica como não anticolinérgicos. A sedação que causam é, em boa parte, anti-histamínica — e em alguns também α1-adrenérgica —, não anticolinérgica.

      FármacoCALSACBAfinidade muscarínica (nM)Afinidade histamínica (nM)
      Hidroxizina3346008,7
      Quetiapina23102019
      Trazodona11> 35000190
      Mirtazapina1—11001,6

      Lembrando que afinidade menor em nM significa maior potência no receptor. Ressalva do próprio artigo: a quetiapina tem um metabólito ativo, a norquetiapina, com afinidade M1 de 38,3 nM — em doses habituais de 150 a 800 mg/dia isso corresponderia a algo entre 81 e 431 mg de difenidramina equivalente, o que reabre a discussão em doses altas.

      Não anticolinérgicos pela afinidade M1Asenapina, bupropiona, buspirona, cariprazina, citalopram, desvenlafaxina, duloxetina, escitalopram, fluoxetina, flufenazina, fluvoxamina, haloperidol, hidroxizina, levomilnaciprano, lurasidona, milnaciprano, molindona, perfenazina, quetiapina, risperidona, trazodona, venlafaxina, vortioxetina e ziprasidona.

      A mirtazapina não aparece nessa lista do artigo, mas é classificada como não anticolinérgica na Tabela 2 do mesmo trabalho (afinidade muscarínica 1100 nM contra 1,6 nM no receptor H1).

      Limitações que valem mais que o número

      • Não existe padrão-ouro. A revisão sistemática de 21 escalas não identificou nenhuma como referência; as que têm cobertura mais ampla de fármacos e levam em conta a variabilidade individual pareceram mais relevantes clinicamente.
      • Fármaco ausente conta como zero. Se um item da lista não está na escala, o total sai subestimado — e é por isso que esta página mostra explicitamente o que ficou de fora de cada uma.
      • Dose não entra nas escalas categóricas. A consideração de dose foi um dos pontos mais inconsistentes entre as escalas revisadas. A coluna de equivalência existe justamente para cobrir esse buraco, mas só cobre os psicotrópicos com afinidade M1 publicada.
      • Origem geográfica influencia a lista. A ACB foi feita nos EUA e não inclui biperideno nem zopiclona — ambos sem registro no país, o que ilustra por que a origem geográfica da escala importa; a CALS foi feita na Espanha. Nenhuma das duas é brasileira — confira disponibilidade e apresentações antes de aplicar.
      • Nem toda carga é central. Vários fármacos de escore 3 na CALS são amônios quaternários (tróspio, brometo de otilônio, iodeto de tiemônio, brometo de cimetrópio, valetamato) ou inalatórios (ipratrópio, tiotrópio, aclidínio, glicopirrônio, umeclidínio), com pouca penetração no sistema nervoso central. Contam para efeitos periféricos; para risco cognitivo, ponderar. A calculadora marca esses itens na lista.
      • A evidência é geriátrica. Os desfechos que dão sentido ao escore — declínio cognitivo, delirium, quedas, mortalidade — foram medidos em idosos. Em adultos jovens o escore continua útil para comparar alternativas e explicar efeitos colaterais, mas o limiar ≥ 3 não carrega o mesmo significado prognóstico.
      • As escalas medem risco populacional, não exposição individual.
      Fontes
      1. Ramos H, Moreno L, Pérez-Tur J, Cháfer-Pericás C, García-Lluch G, Pardo J. CRIDECO Anticholinergic Load Scale: an updated anticholinergic burden scale. Comparison with the ACB scale in Spanish individuals with subjective memory complaints. J Pers Med. 2022;12(2):207. doi:10.3390/jpm12020207. © 2022 os autores; licenciado sob CC BY 4.0 (creativecommons.org/licenses/by/4.0). Os escores foram traduzidos para o português e reorganizados em formato de calculadora; a escala em si não foi alterada.
      2. Anticholinergic Cognitive Burden Scale, atualização de 2012. Aging Brain Program, Indiana University Center for Aging Research. © 2008, 2012 Regenstrief Institute, Inc. Todos os direitos reservados. O uso da escala está sujeito aos Termos de Uso publicados em agingbraincare.org; solicitações de permissão: acb@agingbraincare.org.
      3. Badre N, Geier E. Anticholinergic equivalence in psychotropic medications: a guide for psychiatrists. J Clin Psychopharmacol. 2025;45(6):609-612. doi:10.1097/JCP.0000000000002073. © 2025 Wolters Kluwer Health, Inc.
      4. Vennard O, Stewart C, Tolia M, Soiza RL, Myint PK. Anticholinergic medication burden scales: a systematic review. J Am Geriatr Soc. 2026;74(6):1771-1784. doi:10.1111/jgs.70352. © 2026 os autores; CC BY 4.0 (creativecommons.org/licenses/by/4.0).

      Versão 1.0 — cada pontuação foi conferida item a item contra as tabelas originais. Conteúdo educacional para profissionais de saúde; não substitui julgamento clínico.

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