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Avaliação Clínica da Sexualidade

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Avaliação Clínica da Sexualidade
PSIQUIATRIA EM MOVIMENTO · BIBLIOTECA DO ALUNO

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Sumário

Guia prático

Avaliação Clínica da Sexualidade

O que deve ser investigado — guia objetivo para a história clínica

Cecília Franco, Ricardo Kadi, Tomaz Eugenio · ~4 min de leitura

1. Motivo da avaliação

OBJETIVO A avaliação deve compreender não apenas o "desempenho sexual", mas também desejo, prazer, sofrimento, relacionamentos, saúde física, saúde mental e segurança.
  • Qual é a principal queixa?
  • Desde quando isso incomoda?
  • A preocupação partiu do paciente, do parceiro ou de ambos?
  • O que o paciente considera uma vida sexual satisfatória?
  • Há sofrimento pessoal, prejuízo funcional ou relacional?
PRINCÍPIO CLÍNICO A frequência sexual isolada não define disfunção. É fundamental avaliar mudança em relação ao padrão habitual e sofrimento clinicamente relevante.

2. História e padrão temporal

  • Lifelong ou adquirido?
  • Início súbito ou gradual?
  • Persistente ou episódico?
  • Generalizado ou situacional?
  • Ocorre com todos os parceiros ou apenas em determinados contextos?
  • Também ocorre durante masturbação?
  • Houve algum evento coincidente: doença, cirurgia, relacionamento, parto, menopausa, luto ou início de medicamento?

3. Desejo sexual

  • Presença, frequência e intensidade do interesse sexual.
  • Desejo espontâneo versus responsivo, que aparece após intimidade ou estimulação.
  • Fantasias, pensamentos e iniciativa sexual.
  • Receptividade às iniciativas do parceiro.
  • Discrepância de desejo entre os parceiros.
  • Evitação ou aversão ao contato sexual.
  • Mudança em relação ao funcionamento anterior.

4. Excitação física e subjetiva

  • Sensação mental de excitação e envolvimento.
  • Ereção: obtenção, rigidez, manutenção e situações em que falha.
  • Ereções matinais ou noturnas.
  • Lubrificação, congestão genital e sensibilidade.
  • Necessidade e qualidade da estimulação.
  • Concordância ou discrepância entre excitação subjetiva e resposta genital.
RESSALVA CLÍNICA A ausência de ereções matinais pode reforçar a hipótese orgânica ou hormonal, mas não é diagnóstica isoladamente.

5. Orgasmo e ejaculação

  • Capacidade de atingir o orgasmo.
  • Intensidade e prazer associados.
  • Latência excessivamente curta ou prolongada.
  • Orgasmo ausente, retardado ou reduzido.
  • Ejaculação precoce, retardada, ausente, retrógrada ou dolorosa.
  • Diferenças entre atividade com parceiro e masturbação.

6. Dor e desconforto sexual

  • Dor antes, durante ou depois da atividade sexual.
  • Localização, intensidade e fatores desencadeantes.
  • Dor superficial ou profunda.
  • Ardor, secura, fissuras, sangramento ou espasmo muscular.
  • Dor pélvica, peniana, testicular, vulvar ou vaginal.
  • Medo antecipatório e evitação secundária à dor.

7. Prazer, satisfação e intimidade

  • Presença de prazer, ainda que não haja orgasmo.
  • Satisfação global com a vida sexual.
  • Sensação de conexão, intimidade e segurança.
  • Pressão por desempenho.
  • Vergonha, culpa, ansiedade antecipatória ou espectadorização.
  • Diferença entre o que ocorre e o que o paciente gostaria que ocorresse.

8. Masturbação, fantasias e estímulos sexuais

  • Presença e padrão de masturbação.
  • Estímulos necessários para excitação ou orgasmo.
  • Uso de pornografia e sua relação com o funcionamento sexual.
  • Fantasias, preferências e interesses, sem julgamento moral.
  • Eventual perda de controle, prejuízo ou comportamento sexual compulsivo.

9. Parceiro e relacionamento

  • Existência e duração do relacionamento.
  • Qualidade da comunicação sexual.
  • Conflitos, ressentimentos ou perda de intimidade.
  • Discrepância de desejo.
  • Disfunção sexual do parceiro.
  • Monogamia ou outros acordos relacionais.
  • Infidelidade, separação ou mudança recente na relação.
  • Possibilidade de incluir o parceiro na avaliação, com consentimento do paciente.

10. Identidade, orientação e práticas

  • Identidade de gênero.
  • Orientação afetivo-sexual.
  • Parceiros atuais e anteriores.
  • Tipos de práticas sexuais, perguntados de forma neutra e clinicamente pertinente.
  • Concordância entre desejos, identidade, comportamento e contexto social.
  • Experiências de estigma, discriminação ou necessidade de ocultação.

11. Consentimento e segurança

  • As relações são desejadas e consensuais?
  • O paciente consegue estabelecer limites?
  • Há coerção, pressão, violência ou medo do parceiro?
  • História de abuso sexual ou outras experiências traumáticas.
  • Comportamentos sexuais associados a intoxicação, impulsividade, mania ou vulnerabilidade.
  • Possibilidade de exploração sexual.
SEGURANÇA A saúde sexual envolve respeito, segurança e liberdade de coerção, violência e discriminação, não apenas ausência de doença.

12. Saúde mental

  • Depressão, especialmente anedonia e redução global do interesse.
  • Ansiedade, ansiedade de desempenho e ataques de pânico.
  • Mania ou hipomania, incluindo aumento de libido e comportamentos de risco.
  • Psicose, obsessões sexuais ou sintomas relacionados a trauma.
  • Imagem corporal, autoestima e disforia.
  • Estresse, burnout, luto, desemprego e conflitos familiares.
  • Qualidade do sono e fadiga.
  • História de abuso ou experiências sexuais negativas.

13. Medicamentos e substâncias

Investigar relação temporal entre início, retirada ou alteração de dose e os sintomas sexuais:

  • Antidepressivos.
  • Antipsicóticos e hiperprolactinemia.
  • Estabilizadores do humor.
  • Benzodiazepínicos e sedativos.
  • Anti-hipertensivos.
  • Opioides.
  • Finasterida e antiandrogênicos.
  • Anticoncepcionais e tratamentos hormonais.
  • Testosterona ou anabolizantes.
  • Álcool, cannabis, cocaína, estimulantes e outras substâncias.

14. Condições médicas

  • Diabetes, obesidade e síndrome metabólica.
  • Doença cardiovascular e vascular periférica.
  • Hipogonadismo, hiperprolactinemia e disfunções tireoidianas.
  • Doenças neurológicas.
  • Doença renal, hepática ou pulmonar.
  • Dor crônica e fadiga.
  • Doenças ou cirurgias pélvicas, genitais e prostáticas.
  • Gravidez, pós-parto, amamentação, climatério e menopausa.
  • Ginecomastia, infertilidade ou alterações puberais.
  • Sintomas urinários ou genitais.
VISÃO INTEGRADA A etiologia costuma ser multifatorial; a separação rígida entre "orgânica" e "psicológica" frequentemente é artificial.

15. Saúde reprodutiva e prevenção

  • Número e gênero dos parceiros.
  • Práticas sexuais e exposição a IST.
  • Uso de preservativos e outros métodos de barreira.
  • Histórico de IST e testagem.
  • Contracepção.
  • Desejo de gestação e planejamento reprodutivo.
  • Vacinação para hepatite B e HPV, quando pertinente.
OS 5 Ps Esses aspectos podem ser organizados pelos "5 Ps": parceiros, práticas, proteção contra IST, histórico de IST e prevenção da gravidez.

Síntese final

Ao concluir, o profissional deve ser capaz de responder:

  • Qual domínio sexual está alterado?
  • Trata-se de mudança real em relação ao padrão habitual?
  • Há sofrimento pessoal ou prejuízo relacional?
  • O problema é generalizado ou dependente do contexto?
  • Quais fatores biológicos, psicológicos, relacionais e culturais estão mantendo a dificuldade?
  • O que o paciente deseja melhorar — e qual seria um resultado satisfatório para ele?

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