Provas de R4 para Psiquiatria Forense
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Sumário
Provas de R4 para Psiquiatria Forense
40 questões objetivas comentadas: a prova de Psiquiatria Forense do Processo Seletivo FMUSP / Tekyou Soluções (Residência Médica 2021) e um banco autoral de revisão em clínica, psicofarmacologia e legislação em saúde mental.
Sobre este material
Material de estudo elaborado pela Psiquiatria em Movimento a partir da prova e do gabarito oficial da banca (FMUSP / Tekyou Soluções). Confira o gabarito oficial antes de uso avaliativo formal.
Como praticar
Clique na alternativa que você escolheria em cada questão. A resposta certa é destacada na hora, junto com o comentário e a fundamentação. O contador abaixo acompanha seu progresso.
Bloco I — Prova FMUSP 2021 (Psiquiatria Forense)
Processo Seletivo para Residência Médica FMUSP 2021 — Anos Adicionais e Áreas de Atuação (Tekyou Soluções), com gabarito comentado e fundamentação legal.
Questão 01
Psiquiatria é chamada para avaliar uma paciente internada na enfermaria de clínica médica por COVID, que se recusa a receber intubação orotraqueal, correndo risco de morte. Trata-se de uma senhora de 67 anos, previamente hígida, em processo de luto arrastado desde a morte do marido há um ano — internado semanas com intubação após complicações de câncer. Os filhos a levaram a um psiquiatra 3 meses após o óbito, que iniciou escitalopram 10mg, em uso desde então. Atualmente não se sente deprimida, tem bom sono e mantém independência (mora sozinha, é aposentada), sem queixas cognitivas ou de memória, mas refere saudade intensa do marido, seu "grande companheiro". Ao exame: dispneia e tristeza, porém consciente, orientada e vígil, sem outras alterações. Os filhos confirmam as informações, mas discordam da decisão da mãe. Ao responder à interconsulta, você deve:
A paciente descrita tem capacidade decisória preservada — orientada, sem alteração cognitiva, com quadro depressivo estável e recusa que não decorre de sintoma psiquiátrico ativo. Luto prolongado e tristeza situacional não equivalem a incapacidade decisória; a avaliação segue critérios funcionais (Appelbaum & Grisso), não critérios de resultado.
Fonte: Appelbaum, N Engl J Med 2007 · Código Civil, art. 15 · Taborda et al., Psiquiatria Forense, 2012
Questão 02
A avaliação da imputabilidade penal do ponto de vista psiquiátrico abrange quais aspectos psicopatológicos, relacionados ao crime cometido?
O critério biopsicológico do art. 26 do CP exige incapacidade de entender o caráter ilícito do fato (critério cognitivo) ou de determinar-se de acordo com esse entendimento (critério volitivo). Alterações afetivas ou sensoperceptivas isoladas não bastam.
Fonte: Código Penal, art. 26 · Abdalla-Filho & Taborda, Psiquiatria Forense, 2012
Questão 03
Nas perícias psiquiátricas da esfera trabalhista, a vistoria do local de trabalho:
A vistoria do local de trabalho é recurso complementar, não obrigatório: pode ser dispensada, de forma justificada no laudo, quando documentação e avaliação clínica já formam convicção pericial.
Fonte: Fonseca, Psiquiatria Forense, 2012 · Res. CFM nº 2.056/2013
Questão 04
Na avaliação da capacidade civil do ponto de vista psiquiátrico, qual dos aspectos NÃO deve ser considerado?
A avaliação de capacidade civil concentra-se em crítica, abstração e memória. Prodigalidade é categoria jurídica autônoma, historicamente distinta da incapacidade civil por transtorno psiquiátrico.
Fonte: Código Civil, arts. 3º e 4º (red. Lei 13.146/2015)
Questão 05
A avaliação de alienação mental é utilizada para a concessão de:
A Lei 7.713/1988, art. 6º, XIV, lista "alienação mental" entre as moléstias graves que dão direito a isenção de IR sobre proventos de aposentadoria, reforma ou pensão, mediante laudo pericial oficial.
Fonte: Lei 7.713/1988, art. 6º, XIV · IN RFB nº 1.500/2014
Questão 06
Com a divulgação da versão beta da 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), o burnout, caracterizado como síndrome do esgotamento profissional, ganhou destaque na imprensa internacional em 2019. Sobre a condição mencionada, pode-se afirmar que:
O burnout compartilha sintomas com quadros depressivos, tornando o diferencial desafiador em apresentações intensas. A CID-11 o classifica como fenômeno ocupacional (QD85), não como doença reconhecida; são três dimensões de Maslach (não quatro), sem genes causais mapeados.
Fonte: WHO, ICD-11 QD85 · Maslach & Leiter, World Psychiatry 2016
Questão 07
Marque a alternativa INCORRETA. A Lei 10.216, de 6 de abril de 2001 ("Lei da Reforma Psiquiátrica"), estabelece que:
A Lei 10.216/2001 prevê três modalidades de internação (voluntária, involuntária e compulsória), não duas — tornando essa alternativa a incorreta.
Fonte: Lei 10.216/2001, art. 6º, § único (três modalidades de internação) · arts. 2º e 4º · art. 8º, §1º (comunicação em 72h ao Ministério Público)
Questão 08
A legislação atual sobre a pessoa portadora de deficiência determina que:
O Estatuto da Pessoa com Deficiência restringe a curatela a atos de natureza patrimonial e negocial, preservando direitos existenciais. A tomada de decisão apoiada não é indicada para quadros psiquiátricos graves.
Fonte: Lei 13.146/2015, arts. 84–87 e 1.767–1.783
Questão 09
Sobre os motivos de internação e as justificativas de involuntariedade, assinale a alternativa INCORRETA:
Risco de intoxicação/abstinência, isoladamente, não justifica automaticamente a modalidade involuntária: é necessário avaliar caso a caso o prejuízo da autonomia decisória.
Fonte: Lei 10.216/2001, art. 6º, § único, II
Questão 10
Entende-se por imputabilidade:
Imputabilidade é a capacidade de ser chamado à responsabilidade penal — pressuposto da culpabilidade, mas não a culpabilidade em si, nem a mera existência de transtorno mental.
Fonte: Código Penal, art. 26 · Bitencourt, Tratado de Direito Penal, 2020
Questão 11
Nos incidentes de sanidade mental, o perito psiquiatra deve avaliar:
O perito avalia transtorno mental, entendimento, autodeterminação e nexo causal com o delito — a investigação de provas (materialidade/autoria) foge à sua competência técnica.
Fonte: CPP, arts. 149–154 · Taborda, Psiquiatria Forense, 2012
Questão 12
Homem de 43 anos é encaminhado para incidente de insanidade mental, denunciado por injúria racial (art. 140, §3º, CP). A defesa alega esquizofrenia desde a adolescência. O periciado ofendeu um taxista após discussão sobre o valor de uma corrida, chamando-o de "preto ladrão"; ao chegar a polícia, seguiu proferindo insultos raciais, gritando que "todo preto é ladrão mesmo". O pai, presente, não repreendeu o filho e chegou a validar sua conduta. Atestados confirmam esquizofrenia em acompanhamento desde a adolescência, uso atual de olanzapina 10mg/dia. Na perícia constata-se prejuízo cognitivo relevante (linguagem, atenção, funções executivas, cognição social) e volição amplamente prejudicada, com impulsividade. Questionado, nega qualquer erro e, em discurso delirante, afirma que "os pretos são a causa de todo mal no Brasil" e que "foi assim que meu pai sempre me ensinou e assim que Deus quer". O pai confirma os sintomas psicóticos desde a adolescência, mas ao final da perícia, irritado, minimiza o episódio como exagero "por causa de um preto folgado". Assinale a correta:
O diagnóstico grave não determina, por si, a conclusão pericial: é preciso demonstrar nexo entre conteúdo psicopatológico e conduta, diferenciando delírio de atitude aprendida/reforçada no ambiente familiar. O exame psíquico detalhado é o elemento central.
Fonte: Código Penal, art. 26 · DSM-5-TR · Taborda et al., 2012
Questão 13
Em relação à alta a pedido de um paciente internado em regime de internação involuntária, pode-se afirmar que:
A alta a pedido pode ser concedida a familiar responsável, mesmo com critérios (não letais) ainda presentes, desde que não haja risco iminente de morte.
Fonte: Lei 10.216/2001, arts. 6º e 9º · CEM (Res. CFM 2.217/2018), arts. 22, 24, 34
Questão 14
Assinale a alternativa INCORRETA:
Em perícias previdenciárias com interesse secundário no benefício, o esperado é simulação/supersimulação, não dissimulação — que é o movimento oposto de ocultar sintomas reais.
Fonte: Serafim & Saffi, in Taborda et al., 2012 · Resnick, in Rogers, 2008
Questão 15
Um laudo psiquiátrico para fins judiciais:
A legislação processual não exige que o perito judicial seja psiquiatra — qualquer médico registrado pode, em tese, ser nomeado, embora a especialização seja boa prática recomendada.
Fonte: CPC, art. 156 · CPP, art. 159
Questão 16
O atestado de aptidão mental para adoção:
É documento de capacidade específica: deve responder objetivamente sobre aptidão à parentalidade adotiva, sem extrapolar para juízo geral de capacidade civil.
Fonte: Lei 8.069/1990, art. 197-C · Diretrizes CFM/CFP
Questão 17
São exemplos de perícias criminais, EXCETO:
Insanidade mental, farmacodependência e cessação de periculosidade são perícias penais; a interdição (curatela) é procedimento de natureza cível.
Fonte: CPP, arts. 149–154 · LEP, art. 175 e ss. · Lei 13.146/2015
Questão 18
Dentre os abaixo, NÃO exclui a responsabilidade penal:
O art. 28, I, do CP estabelece expressamente que emoção e paixão não excluem a imputabilidade — diferente de menoridade, embriaguez involuntária completa e retardo mental, que podem excluí-la.
Fonte: Código Penal, arts. 26–28 · ECA, art. 104
Questão 19
São considerados documentos médico-legais, EXCETO:
Na doutrina médico-legal (França), documentos médico-legais são atestado, declaração, parecer e laudo. O prontuário é registro clínico-assistencial contínuo, não documento médico-legal propriamente dito.
Fonte: França, Medicina Legal, 2017 · Res. CFM nº 1.638/2002
Questão 20
Sobre o sigilo em perícia:
O sigilo do perito é parcial e funcional: deve informar ao juízo apenas o que for tecnicamente pertinente aos quesitos, sem expor dados íntimos irrelevantes ao objeto da perícia.
Fonte: CEM (Res. CFM 2.217/2018), art. 73 · Taborda & Abdalla-Filho, Psiquiatria Forense, 2012
Bloco II — Banco comentado de revisão
As questões a seguir não pertencem à prova da FMUSP: são um banco autoral de revisão de literatura, cobrindo clínica, psicofarmacologia e legislação em saúde mental, no mesmo nível de exigência da prova.
Questão 21
Um paciente adulto com transtorno bipolar tipo I, em acompanhamento ambulatorial, encontra-se eutímico, há seis meses, em uso regular de lítio, com litemias previamente dentro da faixa terapêutica. Procura atendimento por quadro de lombalgia mecânica, sendo prescrito anti-inflamatório não esteroide. Uma semana depois, passa a apresentar tremores grosseiros de extremidades, náuseas, diarreia e lentificação psicomotora. Considerando interações farmacológicas relevantes, qual mecanismo explica de forma mais adequada a piora clínica apresentada pelo paciente?
Os AINEs inibem a síntese de prostaglandinas renais (via COX-1/COX- 2), reduzindo o fluxo sanguíneo renal e o ritmo de filtração glomerular e favorecendo maior reabsorção tubular de lítio (que compartilha vias de manuseio renal com o sódio). O resultado é elevação da litemia — mesmo em paciente previamente estável — explicando o quadro de toxicidade (tremor grosseiro, náuseas, diarreia, lentificação psicomotora) que surgiu dias após a introdução do AINE. O lítio não sofre metabolismo hepático relevante (é excretado quase exclusivamente por via renal, inalterado), o que torna a indução enzimática hepática (alternativa A) fisiologicamente incorreta para esse fármaco.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 22
Paciente adulto com diagnóstico de esquizofrenia paranoide apresenta persistência de delírios e alucinações auditivas apesar do uso adequado, em dose terapêutica e por tempo suficiente, de dois antipsicóticos diferentes, incluindo um de segunda geração. Não há evidências de não adesão ao tratamento, uso de substâncias ou comorbidades clínicas descompensadas. Considerando o manejo farmacológico para esquizofrenia resistente ao tratamento, qual é a conduta terapêutica mais adequada nesse contexto?
O quadro preenche a definição operacional de esquizofrenia resistente ao tratamento: persistência de sintomas psicóticos apesar do uso adequado (dose terapêutica, tempo suficiente e boa adesão) de pelo menos dois antipsicóticos diferentes, sendo ao menos um de segunda geração. Nesse cenário, a clozapina é o fármaco com maior evidência de eficácia e constitui o padrão-ouro terapêutico, exigindo monitorização hematológica seriada pelo risco de agranulocitose. Associar dois antipsicóticos em doses máximas carece de evidência robusta de superioridade e aumenta o risco de efeitos adversos; trocar por um típico de alta potência não supera a limitação já demonstrada pelos antipsicóticos prévios; e estabilizador do humor em monoterapia não tem indicação para controle de sintomas psicóticos refratários.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 23
Uma paciente adulta com transtorno depressivo grave, com sintomas psicóticos e risco elevado de suicídio, é encaminhada para tratamento com eletroconvulsoterapia (ECT). Apresenta resposta clínica satisfatória após sessões iniciais. Considerando princípios técnicos e neurobiológicos associados à ECT, qual fator está mais diretamente relacionado ao aumento da eficácia terapêutica, com maior risco de efeitos colaterais cognitivos?
A eficácia da ECT correlaciona-se com a extensão e intensidade da estimulação elétrica e da crise convulsiva induzida: o posicionamento bilateral (bitemporal) proporciona maior eficácia antidepressiva por envolver estimulação mais ampla e bi-hemisférica, às custas de maior risco de efeitos colaterais cognitivos (sobretudo amnésia anterógrada e retrógrada), em comparação ao posicionamento unilateral e/ou ao uso de pulso ultrabreve — estratégias que reduzem o impacto cognitivo, mas com eficácia relativa discutida em alguns contextos clínicos.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 24
Durante a avaliação psicopatológica de um paciente com transtorno psicótico crônico, o examinador observa que o paciente afirma que seus pensamentos são retirados de sua mente por uma força externa e, em outros momentos, inseridos sem sua vontade. O paciente vivencia essas experiências como impostas, com perda do senso de autoria, e não demonstra crítica em relação a elas. Considerando a descrição do fenômeno e sua correta classificação psicopatológica, qual alternativa descreve de forma mais adequada esse quadro clínico psicótico?
Roubo e inserção do pensamento são sintomas de primeira ordem de Schneider, classicamente descritos como vivências de influência e enquadrados nos transtornos da vivência do eu — caracterizados pela perda do senso de autoria e de limite entre o próprio pensamento e o mundo externo, sem crítica preservada, e fortemente associados a quadros psicóticos como a esquizofrenia. Diferem das obsessões (reconhecidas como produto da própria mente, com crítica mantida) e não correspondem a delírio interpretativo secundário nem a um construto psicopatológico reconhecido como "pseudopercepção cognitiva".
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 25
Um homem de 52 anos, com história de uso pesado e diário de álcool por mais de 15 anos, é internado para tratamento de fratura fechada em braço direito. Cerca de 48 horas após a interrupção do consumo de álcool, evolui com confusão mental flutuante, desorientação temporoespacial, agitação psicomotora, sudorese intensa, taquicardia e alucinações visuais vívidas. Considerando a fisiopatologia e o manejo da síndrome de abstinência ao álcool, qual afirmação descreve de forma mais adequada o quadro clínico apresentado pelo paciente?
O quadro é típico de delirium tremens, a forma mais grave da síndrome de abstinência alcoólica, tipicamente surgindo entre 48–96 horas após a última ingestão em etilistas crônicos. Fisiopatologicamente, a supressão abrupta do álcool desmascara uma hiperatividade compensatória do sistema glutamatérgico (receptores NMDA up-regulados) associada à redução relativa da atividade GABAérgica (previamente potencializada de forma crônica pelo álcool), gerando um estado de hiperexcitabilidade do SNC responsável pela agitação, hiperatividade autonômica e alucinações. Trata-se de emergência médica com mortalidade significativa se não tratada adequadamente (hidratação, benzodiazepínicos, correção hidroeletrolítica e reposição de tiamina).
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 26
Um homem de 29 anos, com diagnóstico prévio de esquizofrenia, é levado ao pronto-socorro por intensa agitação psicomotora, comportamento ameaçador e discurso delirante persecutório. Encontra-se vigil, sem sinais clínicos de delirium ou intoxicação por substâncias. Considerando o manejo inicial para agitação psicomotora em paciente psicótico, qual é a conduta farmacológica mais adequada nesse contexto?
Diante de agitação psicomotora com sintomas psicóticos ativos proeminentes, a conduta farmacológica indicada é o uso de antipsicótico (por via parenteral quando a via oral não é viável), que atua tanto no controle da agitação quanto dos sintomas psicóticos de base. A contenção física deve ser reservada a situações de risco iminente e sempre associada — não substituída — ao manejo farmacológico; o benzodiazepínico isolado é mais apropriado quando a agitação não tem componente psicótico proeminente (por exemplo, em quadros de abstinência); e estabilizador do humor oral em monoterapia não tem papel no controle agudo da agitação psicótica.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 27
Um paciente de 78 anos é levado à consulta por familiares devido a queixas de esquecimento progressivo nos últimos dois anos, com dificuldade para lidar com finanças e realizar atividades instrumentais da vida diária. O exame clínico não evidencia rebaixamento do nível de consciência, sem alterações do humor, e não há flutuação cognitiva ao longo do dia. Diante da apresentação clínica no momento da avaliação e da evolução do quadro ao longo do tempo, qual é a hipótese diagnóstica mais provável?
A apresentação — declínio cognitivo insidioso e progressivo ao longo de anos, com repercussão funcional (dificuldade com finanças e atividades instrumentais), na ausência de rebaixamento do nível de consciência, flutuação ou alteração do humor — é característica de demência, distinguindo-se do delirium (instalação aguda e flutuação da consciência) e de um quadro depressivo (que tipicamente cursa com alteração do humor proeminente, podendo mimetizar declínio cognitivo na chamada pseudodemência).
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 28
Uma adolescente de 15 anos é levada à consulta por apresentar, há cerca de dois meses, humor persistentemente triste, irritabilidade, perda de interesse por atividades antes prazerosas, queda do rendimento escolar e isolamento social. Não há uso de substâncias nem evidências de condição clínica associada. Considerando a apresentação da adolescente e a evolução das manifestações descritas, qual afirmação é a mais adequada para a compreensão desse quadro clínico?
O DSM-5 reconhece explicitamente que, em crianças e adolescentes, o episódio depressivo maior pode se manifestar predominantemente por irritabilidade persistente, e não apenas por tristeza clássica — quadro corroborado aqui pela anedonia, queda de rendimento escolar e isolamento social, configurando prejuízo funcional real. Esse quadro não deve ser banalizado como fase transitória do desenvolvimento normal, exigindo avaliação especializada.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 29
Um homem de 40 anos, com diagnóstico de transtorno afetivo bipolar tipo I, apresenta episódio depressivo atual com ideação suicida, lentificação psicomotora e irritabilidade significativa. Na avaliação clínica, observam-se também sintomas de aumento de energia subjetiva, redução parcial da necessidade de sono e pensamentos acelerados, sem critérios para episódio maníaco ou hipomaníaco. Considerando o manejo farmacológico baseado em evidências para episódios depressivos bipolares com características mistas, assinale a alternativa correta.
A presença concomitante de sintomas hipomaníacos/maníacos subsindrômicos durante um episódio depressivo caracteriza depressão bipolar com características mistas — quadro associado a maior risco de virada (switch) maníaca quando tratado com antidepressivos, especialmente em monoterapia. As diretrizes atuais (APA, CANMAT) recomendam priorizar estabilizadores do humor e/ou antipsicóticos atípicos com evidência específica para depressão bipolar, evitando o antidepressivo como estratégia isolada de primeira linha nesse contexto.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 30
Um homem de 38 anos, com transtorno grave por uso de álcool, apresenta múltiplas recaídas e problemas com adesão ao tratamento, apesar de intervenções psicossociais estruturadas. O paciente manifesta desejo de prevenir novas recaídas. Considerando estratégias farmacológicas para o tratamento do transtorno por uso de álcool, qual é a conduta mais adequada?
A naltrexona, antagonista de receptores opioides, é uma das medicações com evidência estabelecida para o tratamento do transtorno por uso de álcool, reduzindo o reforço prazeroso associado ao consumo e auxiliando na prevenção de recaídas — sendo indicada especialmente quando há dificuldade de resposta às intervenções exclusivamente psicossociais. Benzodiazepínicos em uso contínuo não têm indicação de manutenção fora do contexto da abstinência aguda, pelo risco de dependência cruzada; tricíclicos e antipsicóticos atípicos não são tratamentos de primeira linha para prevenção de recaída alcoólica.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 31
Um homem de 32 anos apresenta transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) grave desde a adolescência, com obsessões de contaminação e rituais de lavagem que ocupam várias horas do dia. Apesar de tratamento adequado com dois diferentes inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) em doses máximas e psicoterapia cognitivo-comportamental com exposição e prevenção de resposta, mantém sintomas incapacitantes. Considerando estratégias terapêuticas para o tratamento do TOC resistente, assinale a alternativa correta.
No TOC resistente a pelo menos dois ISRS em dose máxima associados a psicoterapia baseada em exposição e prevenção de resposta bem conduzida, a estratégia com maior respaldo de evidência é a potencialização com antipsicóticos atípicos em baixas doses (como risperidona ou aripiprazol), eficaz em uma parcela desses pacientes. Tricíclicos não serotoninérgicos não constituem primeira linha nesse cenário; benzodiazepínicos isolados não têm eficácia sustentada comprovada sobre os sintomas obsessivo-compulsivos; e a suspensão total da farmacoterapia não é a conduta preferencial diante de sintomas incapacitantes persistentes.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 32
Um homem de 56 anos é levado ao pronto-socorro por familiares com início agudo de agitação psicomotora intensa, confusão mental, febre (39 °C), rigidez muscular generalizada, instabilidade autonômica e elevação importante de creatinoquinase. Há relato de uso recente e escalonamento rápido de antipsicótico de alta potência. Considerando o diagnóstico e o manejo inicial mais adequado em emergências psiquiátricas, assinale a alternativa correta.
A tétrade de rigidez muscular generalizada, hipertermia, instabilidade autonômica e alteração do estado mental, associada a elevação significativa de CK e a uso recente/escalonamento de antipsicótico de alta potência, é característica de síndrome neuroléptica maligna — emergência psiquiátrica potencialmente fatal. A conduta inicial exige suspensão imediata do agente antipsicótico, suporte clínico intensivo (hidratação vigorosa, resfriamento, correção de distúrbios hidroeletrolíticos) e manejo ativo das complicações sistêmicas (rabdomiólise, insuficiência renal aguda), podendo-se considerar agentes específicos como dantrolene ou bromocriptina em casos mais graves.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 33
Uma mulher de 39 anos apresenta ataques de pânico inesperados, há cerca de um ano, seguidos de preocupação persistente com novas crises e comportamentos de evitação. Iniciou tratamento adequado com inibidor seletivo da recaptação de serotonina (ISRS), obtendo redução parcial da frequência dos ataques, mas mantém medo intenso das sensações corporais associadas às crises, interpretando-as como perigosas. Considerando modelos psicopatológicos e implicações terapêuticas do transtorno do pânico, assinale a alternativa correta.
O modelo cognitivo do transtorno do pânico postula que a interpretação catastrófica de sensações corporais benignas (palpitações, tontura, dispneia) como sinal de perigo iminente (infarto, "enlouquecer", morte) é o mecanismo central que perpetua o ciclo de ansiedade antecipatória e comportamentos de evitação. Esse mecanismo é o principal alvo das técnicas de reestruturação cognitiva e exposição interoceptiva da terapia cognitivo- comportamental, sendo especialmente relevante quando há resposta apenas parcial à farmacoterapia isolada, como no caso descrito.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 34
Um homem de 76 anos, internado por fratura de fêmur, evolui no pós-operatório com início agudo de desatenção, flutuação do nível de consciência, inversão do ciclo sono–vigília e alucinações visuais. Apresenta agitação psicomotora que coloca em risco sua própria segurança. Considerando o manejo do delirium em ambiente hospitalar, qual é a conduta mais adequada?
O manejo do delirium hospitalar prioriza a identificação e correção dos fatores precipitantes (dor, infecção, distúrbios metabólicos, fármacos, imobilidade, privação sensorial), associada a medidas não farmacológicas de reorientação (relógio, calendário, presença de familiares, restabelecimento do ciclo sono-vigília). O uso de antipsicótico em baixa dose fica reservado a casos de agitação com risco à segurança do próprio paciente ou de terceiros, pelo menor tempo possível. Benzodiazepínicos não são primeira linha no delirium por outras causas (exceto abstinência de álcool/benzodiazepínicos), pelo risco de piorar a confusão; contenção física contínua e postergação de intervenções não são condutas apropriadas.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 35
Um homem de 47 anos, com transtorno depressivo maior recorrente, é atendido no pronto-socorro após relatar ideação suicida ativa nas últimas semanas. Refere desesperança intensa, insônia terminal e sensação de ser um "peso" para a família. Nega tentativa recente de suicídio, mas possui histórico de tentativa grave, há cinco anos. Considerando fatores clínicos associados ao risco de suicídio e princípios de avaliação em emergências psiquiátricas, assinale a alternativa correta:
A combinação de ideação suicida ativa, desesperança intensa, tentativa prévia grave e transtorno depressivo maior em curso constitui perfil de alto risco de suicídio — a história de tentativa prévia é um dos preditores mais robustos de tentativa futura e de suicídio consumado, independentemente de não haver tentativa recente. Esse conjunto de fatores exige avaliação psiquiátrica especializada e medidas de segurança imediatas, não devendo ser minimizado pela ausência de plano estruturado no momento da avaliação.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 36
Uma mulher de 45 anos apresenta transtorno depressivo recorrente, com três episódios prévios de moderados a graves, sendo dois deles associados a prejuízo funcional importante. Evoluiu com remissão completa após tratamento antidepressivo adequado no episódio atual. Considerando o manejo do tratamento de manutenção do transtorno depressivo recorrente, assinale a alternativa correta.
Em transtorno depressivo recorrente com três ou mais episódios, especialmente com prejuízo funcional associado, as diretrizes recomendam tratamento de manutenção prolongado — frequentemente por tempo indefinido — mantendo a mesma dose eficaz utilizada na fase aguda, já que a redução de dose associa-se a maior risco de recorrência. Não há indicação de substituir o antidepressivo por benzodiazepínico (sem eficácia antidepressiva sustentada e com risco de dependência) nem de suspender precocemente o tratamento farmacológico nesse perfil de recorrência.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 37
Um adolescente de 14 anos, com diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) nível 2 de suporte, apresenta episódios frequentes de agressividade dirigida a cuidadores, principalmente diante de frustrações e mudanças na rotina. Avaliação clínica exclui dor, infecção, epilepsia ativa ou efeitos adversos medicamentosos. Intervenções comportamentais estruturadas foram implementadas de forma adequada, com resposta insuficiente. Considerando o manejo ambulatorial do comportamento agressivo associado ao TEA, assinale a alternativa correta.
Após falha de intervenções comportamentais estruturadas adequadamente implementadas e afastadas causas orgânicas (dor, epilepsia, efeitos adversos medicamentosos), o uso criterioso de antipsicóticos atípicos como a risperidona — com indicação estabelecida para irritabilidade associada ao autismo — é opção farmacológica com respaldo de evidência, exigindo monitorização rigorosa de efeitos adversos metabólicos e extrapiramidais. Benzodiazepínicos não apresentam perfil de segurança favorável nessa população (risco de desinibição paradoxal), e os ISRS não constituem a principal estratégia farmacológica para agressividade nesse contexto.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 38
Durante a realização de uma perícia psiquiátrica judicial, o médico perito é solicitado a avaliar a capacidade de um indivíduo para compreender e determinar-se de acordo com esse entendimento no momento da prática de um ato ilícito. Qual é considerado o principal objeto dessa avaliação?
O objeto central da perícia psiquiátrica voltada à responsabilização penal é determinar se, no momento do fato, o periciando tinha capacidade de entender o caráter ilícito de sua conduta e de determinar-se de acordo com esse entendimento — o critério biopsicológico consagrado no art. 26 do Código Penal brasileiro, que combina a verificação de um substrato biológico (doença mental ou desenvolvimento mental incompleto/retardado) com a repercussão funcional sobre a compreensão e a vontade ao tempo da ação ou omissão. Trata-se de análise retrospectiva e funcional referida ao momento do delito, distinta de diagnóstico para fins terapêuticos, de avaliação de periculosidade futura ou de indicação de internação involuntária.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 39
Em 2011, o Ministério das Saúde publicou a Portaria No. 3088, que instituiu a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), com o objetivo de organizar o tratamento de pessoas com transtornos mentais e relacionados ao uso de substâncias psicoativas. Nesse contexto, qual dos serviços abaixo compõe a RAPS, de acordo com a referida Portaria ministerial No. 3088/2011?
A Unidade de Acolhimento é expressamente listada como ponto de atenção da RAPS no componente "atenção residencial de caráter transitório" (art. 9º da Portaria GM/MS nº 3.088/2011), destinada a pessoas com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas que demandem acompanhamento terapêutico e protetivo transitório (até 6 meses de permanência). Hospital psiquiátrico tradicional, hospital-dia e o modelo genérico de ambulatório de saúde mental não constam como pontos de atenção explicitamente estabelecidos pelo texto original da Portaria 3.088/2011, que organiza o cuidado em saúde mental em torno de uma rede substitutiva de base territorial e comunitária (atenção básica, CAPS, urgência/emergência, atenção residencial de caráter transitório, atenção hospitalar em leitos de saúde mental em hospital geral, estratégias de desinstitucionalização e reabilitação psicossocial).
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Questão 40
Um homem de 35 anos apresenta padrão persistente, desde o início da vida adulta, de desconfiança generalizada, interpretação de intenções alheias como maliciosas, hipersensibilidade a críticas e tendência a guardar rancor. Não há história de episódios psicóticos, transtornos do humor ou uso de substâncias. Mantém funcionamento ocupacional estável, porém com prejuízo significativo nas relações interpessoais. Considerando os critérios diagnósticos e a psicopatologia do quadro relatado, assinale a alternativa correta.
O padrão persistente e generalizado de desconfiança e suspeita, presente desde o início da vida adulta, sem estruturação delirante e sem episódios psicóticos, transtornos do humor ou uso de substâncias, com prejuízo predominantemente nas relações interpessoais e funcionamento ocupacional preservado, é compatível com transtorno de personalidade paranoica (cluster A). Distingue-se do transtorno delirante persecutório pela ausência de delírio estruturado e de quadros psicóticos pela ausência de sintomas psicóticos floridos.
Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento
Referências Gerais
- Brasil. Código Penal (Decreto-Lei 2.848/1940), arts. 26–28, 59–60.
- Brasil. Código de Processo Penal (Decreto-Lei 3.689/1941), arts. 149–154, 159.
- Brasil. Código Civil (Lei 10.406/2002), arts. 3º, 4º e 15 (com alterações da Lei 13.146/2015).
- Brasil. Lei 10.216/2001 (Lei da Reforma Psiquiátrica).
- Brasil. Lei 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência).
- Brasil. Lei 7.713/1988, art. 6º, XIV (isenção de imposto de renda por moléstia grave).
- Brasil. Lei 8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), art. 104 e art. 197-C.
- Brasil. Lei 7.210/1984 (Lei de Execução Penal), cessação de periculosidade.
- Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica — Resolução CFM nº 2.217/2018.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1.638/2002 (prontuário médico).
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.056/2013.
- World Health Organization. ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics: QD85 Burn-out. 2019/2022.
- American Psychiatric Association. DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Taborda JGV, Chalub M, Abdalla-Filho E (orgs). Psiquiatria Forense. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2012.
- França GV. Medicina Legal. 11ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
- Bitencourt CR. Tratado de Direito Penal — Parte Geral. São Paulo: Saraiva, 2020.
- Appelbaum PS. Assessment of Patients' Competence to Consent to Treatment. N Engl J Med. 2007;357(18):1834–1840.
- Maslach C, Leiter MP. Understanding the burnout experience. World Psychiatry. 2016;15(2):103–111.
- Bianchi R, Schonfeld IS, Laurent E. Burnout-depression overlap: A review. Clin Psychol Rev. 2015;36:28–41.
- Resnick PJ. Malingering of Posttraumatic Disorders. In: Rogers R (ed). Clinical Assessment of Malingering and Deception. New York: Guilford Press, 2008.
Psiquiatria em Movimento · material elaborado para estudo dirigido de residência médica (R4) e prova de título em psiquiatria forense, a partir da prova e do gabarito oficial FMUSP / Tekyou Soluções (Processo Seletivo 2021). As justificativas apresentadas refletem o entendimento técnico consolidado na legislação e literatura citadas, com finalidade exclusivamente educacional.