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Psiquiatria em Movimento
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Provas de R4 para Psiquiatria Forense

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Psiquiatria em Movimento
Provas de R4 para Psiquiatria Forense
PSIQUIATRIA EM MOVIMENTO · BIBLIOTECA DO ALUNO

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Sumário

Banco de questões · prova comentada

Provas de R4 para Psiquiatria Forense

40 questões objetivas comentadas: a prova de Psiquiatria Forense do Processo Seletivo FMUSP / Tekyou Soluções (Residência Médica 2021) e um banco autoral de revisão em clínica, psicofarmacologia e legislação em saúde mental.

Psiquiatria em Movimento · estudo dirigido para R4 e prova de título

Sobre este material

EscopoTranscrição integral das 20 questões objetivas de Psiquiatria Forense do Processo Seletivo para Residência Médica 2021 (Anos Adicionais e Áreas de Atuação — Faculdade de Medicina da USP), seguida de gabarito comentado por número, com fundamentação legal, clínica e bibliográfica. Uso para revisão e estudo dirigido de prova de título e R4 em psiquiatria forense.
Base do materialCódigo Penal e Código de Processo Penal · Código Civil (Lei 13.146/2015) · Lei 10.216/2001 (Reforma Psiquiátrica) · Estatuto da Pessoa com Deficiência · Taborda, Chalub & Abdalla-Filho, Psiquiatria Forense, 2ª ed. · França, Medicina Legal, 11ª ed.

Material de estudo elaborado pela Psiquiatria em Movimento a partir da prova e do gabarito oficial da banca (FMUSP / Tekyou Soluções). Confira o gabarito oficial antes de uso avaliativo formal.

Como praticar

Clique na alternativa que você escolheria em cada questão. A resposta certa é destacada na hora, junto com o comentário e a fundamentação. O contador abaixo acompanha seu progresso.

Progresso 0 / 40 respondidas 0 acertos

Bloco I — Prova FMUSP 2021 (Psiquiatria Forense)

Processo Seletivo para Residência Médica FMUSP 2021 — Anos Adicionais e Áreas de Atuação (Tekyou Soluções), com gabarito comentado e fundamentação legal.

Questão 01

Psiquiatria é chamada para avaliar uma paciente internada na enfermaria de clínica médica por COVID, que se recusa a receber intubação orotraqueal, correndo risco de morte. Trata-se de uma senhora de 67 anos, previamente hígida, em processo de luto arrastado desde a morte do marido há um ano — internado semanas com intubação após complicações de câncer. Os filhos a levaram a um psiquiatra 3 meses após o óbito, que iniciou escitalopram 10mg, em uso desde então. Atualmente não se sente deprimida, tem bom sono e mantém independência (mora sozinha, é aposentada), sem queixas cognitivas ou de memória, mas refere saudade intensa do marido, seu "grande companheiro". Ao exame: dispneia e tristeza, porém consciente, orientada e vígil, sem outras alterações. Os filhos confirmam as informações, mas discordam da decisão da mãe. Ao responder à interconsulta, você deve:

AIndicar intubação imediata, já que a paciente corre risco iminente de morte e os filhos apoiam a intubação.
BResponder somente que a paciente se apresenta estável dos sintomas depressivos, e que deve manter o tratamento com escitalopram 10mg.
CResponder que a paciente tem condições de tomar uma decisão autônoma sobre seu tratamento.
DSolicitar exames de neuroimagem, pois sem estes não é possível fazer qualquer consideração sobre o estado mental da paciente.
Resposta: C

A paciente descrita tem capacidade decisória preservada — orientada, sem alteração cognitiva, com quadro depressivo estável e recusa que não decorre de sintoma psiquiátrico ativo. Luto prolongado e tristeza situacional não equivalem a incapacidade decisória; a avaliação segue critérios funcionais (Appelbaum & Grisso), não critérios de resultado.

Fonte: Appelbaum, N Engl J Med 2007 · Código Civil, art. 15 · Taborda et al., Psiquiatria Forense, 2012

Questão 02

A avaliação da imputabilidade penal do ponto de vista psiquiátrico abrange quais aspectos psicopatológicos, relacionados ao crime cometido?

ACognitivo e volitivo.
BAfetivo e cognitivo.
CVolitivo e afetivo.
DSensoperceptivo e afetivo.
Resposta: A

O critério biopsicológico do art. 26 do CP exige incapacidade de entender o caráter ilícito do fato (critério cognitivo) ou de determinar-se de acordo com esse entendimento (critério volitivo). Alterações afetivas ou sensoperceptivas isoladas não bastam.

Fonte: Código Penal, art. 26 · Abdalla-Filho & Taborda, Psiquiatria Forense, 2012

Questão 03

Nas perícias psiquiátricas da esfera trabalhista, a vistoria do local de trabalho:

ADeve ser realizada o mais breve possível.
BDeve ser realizada somente após a realização da perícia.
CDeve ser realizada antes da realização da perícia.
DPode ser dispensável.
Resposta: D

A vistoria do local de trabalho é recurso complementar, não obrigatório: pode ser dispensada, de forma justificada no laudo, quando documentação e avaliação clínica já formam convicção pericial.

Fonte: Fonseca, Psiquiatria Forense, 2012 · Res. CFM nº 2.056/2013

Questão 04

Na avaliação da capacidade civil do ponto de vista psiquiátrico, qual dos aspectos NÃO deve ser considerado?

ACrítica.
BProdigalidade.
CCapacidade de abstração.
DMemória.
Resposta: B

A avaliação de capacidade civil concentra-se em crítica, abstração e memória. Prodigalidade é categoria jurídica autônoma, historicamente distinta da incapacidade civil por transtorno psiquiátrico.

Fonte: Código Civil, arts. 3º e 4º (red. Lei 13.146/2015)

Questão 05

A avaliação de alienação mental é utilizada para a concessão de:

AAposentadoria por invalidez.
BAuxílio-doença acidentário.
CIsenção de imposto de renda.
DAdicional por gravidade.
Resposta: C

A Lei 7.713/1988, art. 6º, XIV, lista "alienação mental" entre as moléstias graves que dão direito a isenção de IR sobre proventos de aposentadoria, reforma ou pensão, mediante laudo pericial oficial.

Fonte: Lei 7.713/1988, art. 6º, XIV · IN RFB nº 1.500/2014

Questão 06

Com a divulgação da versão beta da 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), o burnout, caracterizado como síndrome do esgotamento profissional, ganhou destaque na imprensa internacional em 2019. Sobre a condição mencionada, pode-se afirmar que:

ATem íntima sobreposição com sintomas depressivos, a depender da intensidade do quadro.
BFoi elevada ao patamar de doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde.
CSuas quatro dimensões sintomáticas consistem em esgotamento emocional e de energia, sintomas depressivos, redução de produtividade e distanciamento do emprego.
DTem genes já mapeados que contribuem para sua fisiopatologia.
Resposta: A

O burnout compartilha sintomas com quadros depressivos, tornando o diferencial desafiador em apresentações intensas. A CID-11 o classifica como fenômeno ocupacional (QD85), não como doença reconhecida; são três dimensões de Maslach (não quatro), sem genes causais mapeados.

Fonte: WHO, ICD-11 QD85 · Maslach & Leiter, World Psychiatry 2016

Questão 07

Marque a alternativa INCORRETA. A Lei 10.216, de 6 de abril de 2001 ("Lei da Reforma Psiquiátrica"), estabelece que:

AOs portadores de transtorno mental devem ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis.
BA internação psiquiátrica apenas deverá ser realizada quando os recursos extra-hospitalares não forem suficientes para o tratamento.
CExistem dois tipos de internação psiquiátrica: voluntária e involuntária.
DAs internações psiquiátricas involuntárias devem ser comunicadas em até 72 horas ao Ministério Público Estadual.
Resposta: C

A Lei 10.216/2001 prevê três modalidades de internação (voluntária, involuntária e compulsória), não duas — tornando essa alternativa a incorreta.

Fonte: Lei 10.216/2001, art. 6º, § único (três modalidades de internação) · arts. 2º e 4º · art. 8º, §1º (comunicação em 72h ao Ministério Público)

Questão 08

A legislação atual sobre a pessoa portadora de deficiência determina que:

ATodas as pessoas portadoras de deficiência são consideradas, no mínimo, parcialmente incapazes para os atos da vida civil.
BA curatela afetará tão somente os atos relacionados aos direitos de natureza patrimonial e negocial.
CA curatela dá poderes ilimitados ao curador.
DA tomada de decisão apoiada é a medida indicada para os transtornos psiquiátricos graves.
Resposta: B

O Estatuto da Pessoa com Deficiência restringe a curatela a atos de natureza patrimonial e negocial, preservando direitos existenciais. A tomada de decisão apoiada não é indicada para quadros psiquiátricos graves.

Fonte: Lei 13.146/2015, arts. 84–87 e 1.767–1.783

Questão 09

Sobre os motivos de internação e as justificativas de involuntariedade, assinale a alternativa INCORRETA:

AOs motivos de internação levam em conta os riscos aos quais o paciente está sujeito ou que impõe a terceiros devido à expressão de um transtorno psiquiátrico.
BOs motivos de internação incluem a avaliação do diagnóstico e da gravidade do transtorno mental, além da capacidade da família de prover cuidados domiciliares.
CAs justificativas de involuntariedade decorrem da avaliação da capacidade decisória do paciente sobre seu tratamento e de sua capacidade de se responsabilizar por suas escolhas.
DO risco de intoxicação ou abstinência de substâncias está compreendido, isoladamente, entre as justificativas para se realizar uma internação na modalidade involuntária.
Resposta: D

Risco de intoxicação/abstinência, isoladamente, não justifica automaticamente a modalidade involuntária: é necessário avaliar caso a caso o prejuízo da autonomia decisória.

Fonte: Lei 10.216/2001, art. 6º, § único, II

Questão 10

Entende-se por imputabilidade:

AA culpabilidade do agente.
BA capacidade de um indivíduo que praticou uma infração de ser chamado à responsabilidade penal.
CA existência de um transtorno mental atual ou pré-existente que possa ter relação com a prática delituosa.
DA capacidade de um indivíduo que praticou uma infração de cumprir uma pena em regime fechado.
Resposta: B

Imputabilidade é a capacidade de ser chamado à responsabilidade penal — pressuposto da culpabilidade, mas não a culpabilidade em si, nem a mera existência de transtorno mental.

Fonte: Código Penal, art. 26 · Bitencourt, Tratado de Direito Penal, 2020

Questão 11

Nos incidentes de sanidade mental, o perito psiquiatra deve avaliar:

AApenas a existência de transtorno mental no periciado.
BExistência de transtorno mental, capacidade de entendimento e autodeterminação.
CExistência de transtorno mental, capacidade de entendimento e autodeterminação, nexo causal com o delito cometido.
DExistência de transtorno mental, capacidade de entendimento e autodeterminação, nexo causal com o delito cometido e investigação detalhada sobre as provas relacionadas ao delito.
Resposta: C

O perito avalia transtorno mental, entendimento, autodeterminação e nexo causal com o delito — a investigação de provas (materialidade/autoria) foge à sua competência técnica.

Fonte: CPP, arts. 149–154 · Taborda, Psiquiatria Forense, 2012

Questão 12

Homem de 43 anos é encaminhado para incidente de insanidade mental, denunciado por injúria racial (art. 140, §3º, CP). A defesa alega esquizofrenia desde a adolescência. O periciado ofendeu um taxista após discussão sobre o valor de uma corrida, chamando-o de "preto ladrão"; ao chegar a polícia, seguiu proferindo insultos raciais, gritando que "todo preto é ladrão mesmo". O pai, presente, não repreendeu o filho e chegou a validar sua conduta. Atestados confirmam esquizofrenia em acompanhamento desde a adolescência, uso atual de olanzapina 10mg/dia. Na perícia constata-se prejuízo cognitivo relevante (linguagem, atenção, funções executivas, cognição social) e volição amplamente prejudicada, com impulsividade. Questionado, nega qualquer erro e, em discurso delirante, afirma que "os pretos são a causa de todo mal no Brasil" e que "foi assim que meu pai sempre me ensinou e assim que Deus quer". O pai confirma os sintomas psicóticos desde a adolescência, mas ao final da perícia, irritado, minimiza o episódio como exagero "por causa de um preto folgado". Assinale a correta:

AIndependente do diagnóstico, o exame psíquico é o elemento-chave para a avaliação da imputabilidade.
BO perito deve identificar o diagnóstico de esquizofrenia que o torna inimputável.
CO laudo deve incluir a discussão dos efeitos do racismo na saúde mental.
DApesar da esquizofrenia evidente, o periciando é imputável por saber o que estava fazendo.
Resposta: A

O diagnóstico grave não determina, por si, a conclusão pericial: é preciso demonstrar nexo entre conteúdo psicopatológico e conduta, diferenciando delírio de atitude aprendida/reforçada no ambiente familiar. O exame psíquico detalhado é o elemento central.

Fonte: Código Penal, art. 26 · DSM-5-TR · Taborda et al., 2012

Questão 13

Em relação à alta a pedido de um paciente internado em regime de internação involuntária, pode-se afirmar que:

ANão deve ser aceita pelo médico responsável em nenhuma circunstância.
BDeve ser aceita apenas quando solicitada pelo familiar que assinou a internação involuntária.
CDeve ser aceita desde que o paciente tenha condições de responder por seus atos.
DDeve ser aceita desde que solicitada por um familiar responsável pelo paciente, mesmo que este ainda apresente critérios de internação, porém não risco iminente de morte.
Resposta: D

A alta a pedido pode ser concedida a familiar responsável, mesmo com critérios (não letais) ainda presentes, desde que não haja risco iminente de morte.

Fonte: Lei 10.216/2001, arts. 6º e 9º · CEM (Res. CFM 2.217/2018), arts. 22, 24, 34

Questão 14

Assinale a alternativa INCORRETA:

ADissimulação é a tentativa de ocultar ou minimizar sintomas ou transtornos presentes.
BA dissimulação ocorre com frequência em perícias previdenciárias em que o periciado tem a intenção de se afastar do trabalho.
CNa simulação pura, o examinado procura relatar sintomas que, de fato, não existem.
DA supersimulação é o exagero de sinais e sintomas por um indivíduo realmente doente, ou a criação de novos sintomas não decorrentes da doença de que é portador.
Resposta: B

Em perícias previdenciárias com interesse secundário no benefício, o esperado é simulação/supersimulação, não dissimulação — que é o movimento oposto de ocultar sintomas reais.

Fonte: Serafim & Saffi, in Taborda et al., 2012 · Resnick, in Rogers, 2008

Questão 15

Um laudo psiquiátrico para fins judiciais:

APode ser feito por qualquer médico.
BSó pode ser feito por psiquiatra forense.
CPode ser feito por qualquer psiquiatra.
DPode ser feito por psicólogo ou psiquiatra.
Resposta: A

A legislação processual não exige que o perito judicial seja psiquiatra — qualquer médico registrado pode, em tese, ser nomeado, embora a especialização seja boa prática recomendada.

Fonte: CPC, art. 156 · CPP, art. 159

Questão 16

O atestado de aptidão mental para adoção:

AInclui avaliação para todos os atos da vida civil.
BObrigatoriamente deve avaliar o cônjuge.
CLimita-se a verificar a presença ou ausência de transtornos mentais.
DDeve afirmar ou negar incapacidade mental apenas para esse ato.
Resposta: D

É documento de capacidade específica: deve responder objetivamente sobre aptidão à parentalidade adotiva, sem extrapolar para juízo geral de capacidade civil.

Fonte: Lei 8.069/1990, art. 197-C · Diretrizes CFM/CFP

Questão 17

São exemplos de perícias criminais, EXCETO:

AIncidente de insanidade mental.
BIncidente de farmacodependência.
CCessação de periculosidade.
DInterdição de direitos.
Resposta: D

Insanidade mental, farmacodependência e cessação de periculosidade são perícias penais; a interdição (curatela) é procedimento de natureza cível.

Fonte: CPP, arts. 149–154 · LEP, art. 175 e ss. · Lei 13.146/2015

Questão 18

Dentre os abaixo, NÃO exclui a responsabilidade penal:

AIdade.
BEmoção ou paixão.
CEmbriaguez involuntária ou culposa.
DRetardo mental.
Resposta: B

O art. 28, I, do CP estabelece expressamente que emoção e paixão não excluem a imputabilidade — diferente de menoridade, embriaguez involuntária completa e retardo mental, que podem excluí-la.

Fonte: Código Penal, arts. 26–28 · ECA, art. 104

Questão 19

São considerados documentos médico-legais, EXCETO:

AProntuário.
BLaudo.
CParecer.
DDeclaração.
Resposta: A

Na doutrina médico-legal (França), documentos médico-legais são atestado, declaração, parecer e laudo. O prontuário é registro clínico-assistencial contínuo, não documento médico-legal propriamente dito.

Fonte: França, Medicina Legal, 2017 · Res. CFM nº 1.638/2002

Questão 20

Sobre o sigilo em perícia:

ANão há qualquer sigilo, pois o perito irá dizer o que quiser para a justiça.
BExiste um sigilo parcial, pois o perito não pode dizer algo que prejudicará o periciando.
CExiste um sigilo parcial, pois o perito só pode dizer o que for pertinente à questão.
DNão há qualquer sigilo, pois este pode ser quebrado por dever legal.
Resposta: C

O sigilo do perito é parcial e funcional: deve informar ao juízo apenas o que for tecnicamente pertinente aos quesitos, sem expor dados íntimos irrelevantes ao objeto da perícia.

Fonte: CEM (Res. CFM 2.217/2018), art. 73 · Taborda & Abdalla-Filho, Psiquiatria Forense, 2012

Bloco II — Banco comentado de revisão

As questões a seguir não pertencem à prova da FMUSP: são um banco autoral de revisão de literatura, cobrindo clínica, psicofarmacologia e legislação em saúde mental, no mesmo nível de exigência da prova.

Questão 21

Um paciente adulto com transtorno bipolar tipo I, em acompanhamento ambulatorial, encontra-se eutímico, há seis meses, em uso regular de lítio, com litemias previamente dentro da faixa terapêutica. Procura atendimento por quadro de lombalgia mecânica, sendo prescrito anti-inflamatório não esteroide. Uma semana depois, passa a apresentar tremores grosseiros de extremidades, náuseas, diarreia e lentificação psicomotora. Considerando interações farmacológicas relevantes, qual mecanismo explica de forma mais adequada a piora clínica apresentada pelo paciente?

AIndução enzimática hepática com aceleração do metabolismo do lítio e formação de metabólitos neurotóxicos.
BCompetição direta do lítio com receptores dopaminérgicos D₂, resultando em sintomas extrapiramidais.
CInibição da recaptação sináptica de monoaminas, potencializando efeitos serotoninérgicos centrais.
DRedução da depuração renal do lítio por interferência na reabsorção tubular, levando ao aumento de seu nível sérico.
Resposta: D

Os AINEs inibem a síntese de prostaglandinas renais (via COX-1/COX- 2), reduzindo o fluxo sanguíneo renal e o ritmo de filtração glomerular e favorecendo maior reabsorção tubular de lítio (que compartilha vias de manuseio renal com o sódio). O resultado é elevação da litemia — mesmo em paciente previamente estável — explicando o quadro de toxicidade (tremor grosseiro, náuseas, diarreia, lentificação psicomotora) que surgiu dias após a introdução do AINE. O lítio não sofre metabolismo hepático relevante (é excretado quase exclusivamente por via renal, inalterado), o que torna a indução enzimática hepática (alternativa A) fisiologicamente incorreta para esse fármaco.

Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento

Questão 22

Paciente adulto com diagnóstico de esquizofrenia paranoide apresenta persistência de delírios e alucinações auditivas apesar do uso adequado, em dose terapêutica e por tempo suficiente, de dois antipsicóticos diferentes, incluindo um de segunda geração. Não há evidências de não adesão ao tratamento, uso de substâncias ou comorbidades clínicas descompensadas. Considerando o manejo farmacológico para esquizofrenia resistente ao tratamento, qual é a conduta terapêutica mais adequada nesse contexto?

AAssociar dois antipsicóticos de segunda geração em doses máximas, visando potencialização dopaminérgica combinada.
BSubstituir o antipsicótico atual por outro típico de alta potência, devido ao maior bloqueio dopaminérgico.
CIniciar clozapina, com monitorização hematológica regular.
DIntroduzir estabilizador do humor como monoterapia, visando controle dos sintomas psicóticos persistentes.
Resposta: C

O quadro preenche a definição operacional de esquizofrenia resistente ao tratamento: persistência de sintomas psicóticos apesar do uso adequado (dose terapêutica, tempo suficiente e boa adesão) de pelo menos dois antipsicóticos diferentes, sendo ao menos um de segunda geração. Nesse cenário, a clozapina é o fármaco com maior evidência de eficácia e constitui o padrão-ouro terapêutico, exigindo monitorização hematológica seriada pelo risco de agranulocitose. Associar dois antipsicóticos em doses máximas carece de evidência robusta de superioridade e aumenta o risco de efeitos adversos; trocar por um típico de alta potência não supera a limitação já demonstrada pelos antipsicóticos prévios; e estabilizador do humor em monoterapia não tem indicação para controle de sintomas psicóticos refratários.

Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento

Questão 23

Uma paciente adulta com transtorno depressivo grave, com sintomas psicóticos e risco elevado de suicídio, é encaminhada para tratamento com eletroconvulsoterapia (ECT). Apresenta resposta clínica satisfatória após sessões iniciais. Considerando princípios técnicos e neurobiológicos associados à ECT, qual fator está mais diretamente relacionado ao aumento da eficácia terapêutica, com maior risco de efeitos colaterais cognitivos?

APosicionamento bilateral dos eletrodos, associado a maior intensidade das crises convulsivas.
BUtilização de pulso ultrabreve, que diminui a carga elétrica total administrada.
CRedução progressiva da carga elétrica ao longo das sessões, visando otimização do efeito antidepressivo.
DIndução de crises convulsivas de curta duração, inferiores a 10 segundos, com maior especificidade cortical.
Resposta: A

A eficácia da ECT correlaciona-se com a extensão e intensidade da estimulação elétrica e da crise convulsiva induzida: o posicionamento bilateral (bitemporal) proporciona maior eficácia antidepressiva por envolver estimulação mais ampla e bi-hemisférica, às custas de maior risco de efeitos colaterais cognitivos (sobretudo amnésia anterógrada e retrógrada), em comparação ao posicionamento unilateral e/ou ao uso de pulso ultrabreve — estratégias que reduzem o impacto cognitivo, mas com eficácia relativa discutida em alguns contextos clínicos.

Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento

Questão 24

Durante a avaliação psicopatológica de um paciente com transtorno psicótico crônico, o examinador observa que o paciente afirma que seus pensamentos são retirados de sua mente por uma força externa e, em outros momentos, inseridos sem sua vontade. O paciente vivencia essas experiências como impostas, com perda do senso de autoria, e não demonstra crítica em relação a elas. Considerando a descrição do fenômeno e sua correta classificação psicopatológica, qual alternativa descreve de forma mais adequada esse quadro clínico psicótico?

AIdeias obsessivas, definidas por pensamentos intrusivos reconhecidos como produtos da própria mente.
BVivências de influência, caracterizadas por roubo e inserção do pensamento, pertencentes aos transtornos da vivência do eu.
CDelírios interpretativos secundários, decorrentes de alterações do juízo de realidade preservado.
DPseudopercepções cognitivas, nas quais há crítica preservada e reconhecimento da origem interna do pensamento.
Resposta: B

Roubo e inserção do pensamento são sintomas de primeira ordem de Schneider, classicamente descritos como vivências de influência e enquadrados nos transtornos da vivência do eu — caracterizados pela perda do senso de autoria e de limite entre o próprio pensamento e o mundo externo, sem crítica preservada, e fortemente associados a quadros psicóticos como a esquizofrenia. Diferem das obsessões (reconhecidas como produto da própria mente, com crítica mantida) e não correspondem a delírio interpretativo secundário nem a um construto psicopatológico reconhecido como "pseudopercepção cognitiva".

Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento

Questão 25

Um homem de 52 anos, com história de uso pesado e diário de álcool por mais de 15 anos, é internado para tratamento de fratura fechada em braço direito. Cerca de 48 horas após a interrupção do consumo de álcool, evolui com confusão mental flutuante, desorientação temporoespacial, agitação psicomotora, sudorese intensa, taquicardia e alucinações visuais vívidas. Considerando a fisiopatologia e o manejo da síndrome de abstinência ao álcool, qual afirmação descreve de forma mais adequada o quadro clínico apresentado pelo paciente?

ATrata-se de delirium tremens, relacionado à hiperatividade do sistema glutamatérgico e redução da atividade GABAérgica, constituindo emergência médica com risco elevado de mortalidade.
BCorresponde à intoxicação alcoólica tardia, causada por metabólitos ativos do etanol, com curso autolimitado e bom prognóstico.
CRepresenta quadro de psicose alcoólica crônica, independente do tempo de abstinência e sem repercussões autonômicas relevantes.
DCaracteriza uma reação paradoxal à abstinência, mais comum nas primeiras 6 horas após a última ingestão alcoólica.
Resposta: A

O quadro é típico de delirium tremens, a forma mais grave da síndrome de abstinência alcoólica, tipicamente surgindo entre 48–96 horas após a última ingestão em etilistas crônicos. Fisiopatologicamente, a supressão abrupta do álcool desmascara uma hiperatividade compensatória do sistema glutamatérgico (receptores NMDA up-regulados) associada à redução relativa da atividade GABAérgica (previamente potencializada de forma crônica pelo álcool), gerando um estado de hiperexcitabilidade do SNC responsável pela agitação, hiperatividade autonômica e alucinações. Trata-se de emergência médica com mortalidade significativa se não tratada adequadamente (hidratação, benzodiazepínicos, correção hidroeletrolítica e reposição de tiamina).

Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento

Questão 26

Um homem de 29 anos, com diagnóstico prévio de esquizofrenia, é levado ao pronto-socorro por intensa agitação psicomotora, comportamento ameaçador e discurso delirante persecutório. Encontra-se vigil, sem sinais clínicos de delirium ou intoxicação por substâncias. Considerando o manejo inicial para agitação psicomotora em paciente psicótico, qual é a conduta farmacológica mais adequada nesse contexto?

APriorização exclusiva de contenção física, adiando intervenção farmacológica até estabilização comportamental.
BAdministração de antipsicótico parenteral, visando controle da agitação e dos sintomas psicóticos.
CUso isolado de benzodiazepínico em altas doses, independentemente da presença de sintomas psicóticos ativos.
DIntrodução imediata de estabilizador do humor oral, como monoterapia, para controle progressivo da agitação.
Resposta: B

Diante de agitação psicomotora com sintomas psicóticos ativos proeminentes, a conduta farmacológica indicada é o uso de antipsicótico (por via parenteral quando a via oral não é viável), que atua tanto no controle da agitação quanto dos sintomas psicóticos de base. A contenção física deve ser reservada a situações de risco iminente e sempre associada — não substituída — ao manejo farmacológico; o benzodiazepínico isolado é mais apropriado quando a agitação não tem componente psicótico proeminente (por exemplo, em quadros de abstinência); e estabilizador do humor oral em monoterapia não tem papel no controle agudo da agitação psicótica.

Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento

Questão 27

Um paciente de 78 anos é levado à consulta por familiares devido a queixas de esquecimento progressivo nos últimos dois anos, com dificuldade para lidar com finanças e realizar atividades instrumentais da vida diária. O exame clínico não evidencia rebaixamento do nível de consciência, sem alterações do humor, e não há flutuação cognitiva ao longo do dia. Diante da apresentação clínica no momento da avaliação e da evolução do quadro ao longo do tempo, qual é a hipótese diagnóstica mais provável?

ADelirium, caracterizado por instalação aguda e flutuação do nível de consciência.
BTranstorno depressivo maior, no qual não ocorre comprometimento funcional significativo.
CEnvelhecimento cognitivo normal, sem impacto nas atividades da vida diária.
DDemência, caracterizada por declínio cognitivo e prejuízo funcional.
Resposta: D

A apresentação — declínio cognitivo insidioso e progressivo ao longo de anos, com repercussão funcional (dificuldade com finanças e atividades instrumentais), na ausência de rebaixamento do nível de consciência, flutuação ou alteração do humor — é característica de demência, distinguindo-se do delirium (instalação aguda e flutuação da consciência) e de um quadro depressivo (que tipicamente cursa com alteração do humor proeminente, podendo mimetizar declínio cognitivo na chamada pseudodemência).

Fonte: Banco comentado — revisão de literatura · Psiquiatria em Movimento

Questão 28

Uma adolescente de 15 anos é levada à consulta por apresentar, há cerca de dois meses, humor persistentemente triste, irritabilidade, perda de interesse por atividades antes prazerosas, queda do rendimento escolar e isolamento social. Não há uso de substâncias nem evidências de condição clínica associada. Considerando a apresentação da adolescente e a evolução das manifestações descritas, qual afirmação é a mais adequada para a compreensão desse quadro clínico?

AQuadros depressivos nessa faixa etária são invariavelmente transitórios e não requerem avaliação especializada.
BA presença de tristeza na adolescência, independentemente da duração e do impacto funcional, caracteriza desenvolvimento emocional normal.
CEpisódios depressivos na adolescência podem se manifestar por humor deprimido ou irritabilidade persistente, com prejuízo funcional.
DO diagnóstico de depressão na adolescência exige obrigatoriamente a presença de sintomas psicóticos associados.
Resposta: C

O DSM-5 reconhece explicitamente que, em crianças e adolescentes, o episódio depressivo maior pode se manifestar predominantemente por irritabilidade persistente, e não apenas por tristeza clássica — quadro corroborado aqui pela anedonia, queda de rendimento escolar e isolamento social, configurando prejuízo funcional real. Esse quadro não deve ser banalizado como fase transitória do desenvolvimento normal, exigindo avaliação especializada.

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Questão 29

Um homem de 40 anos, com diagnóstico de transtorno afetivo bipolar tipo I, apresenta episódio depressivo atual com ideação suicida, lentificação psicomotora e irritabilidade significativa. Na avaliação clínica, observam-se também sintomas de aumento de energia subjetiva, redução parcial da necessidade de sono e pensamentos acelerados, sem critérios para episódio maníaco ou hipomaníaco. Considerando o manejo farmacológico baseado em evidências para episódios depressivos bipolares com características mistas, assinale a alternativa correta.

AA monoterapia com antidepressivo inibidor seletivo da recaptação de serotonina (ISRS) é a estratégia de escolha, desde que associada a monitorização clínica rigorosa.
BA presença de sintomas mistos afasta o diagnóstico de transtorno bipolar e sugere transtorno depressivo maior com ansiedade associada.
CO uso de antidepressivos tricíclicos é preferencial nesses quadros, devido à maior potência antidepressiva.
DEpisódios depressivos bipolares com características mistas apresentam risco de virada maníaca com antidepressivos e devem ser tratados prioritariamente com estabilizadores do humor e/ou antipsicóticos atípicos.
Resposta: D

A presença concomitante de sintomas hipomaníacos/maníacos subsindrômicos durante um episódio depressivo caracteriza depressão bipolar com características mistas — quadro associado a maior risco de virada (switch) maníaca quando tratado com antidepressivos, especialmente em monoterapia. As diretrizes atuais (APA, CANMAT) recomendam priorizar estabilizadores do humor e/ou antipsicóticos atípicos com evidência específica para depressão bipolar, evitando o antidepressivo como estratégia isolada de primeira linha nesse contexto.

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Questão 30

Um homem de 38 anos, com transtorno grave por uso de álcool, apresenta múltiplas recaídas e problemas com adesão ao tratamento, apesar de intervenções psicossociais estruturadas. O paciente manifesta desejo de prevenir novas recaídas. Considerando estratégias farmacológicas para o tratamento do transtorno por uso de álcool, qual é a conduta mais adequada?

AIntroduzir benzodiazepínico em esquema contínuo para evitar fissura e novas recaídas.
BIntroduzir naltrexona como estratégia para melhorar adesão e reduzir recaídas.
CUtilizar antidepressivo tricíclico como monoterapia para controle do consumo de álcool.
DIndicar antipsicótico atípico como tratamento de primeira linha para prevenção de recaídas alcoólicas.
Resposta: B

A naltrexona, antagonista de receptores opioides, é uma das medicações com evidência estabelecida para o tratamento do transtorno por uso de álcool, reduzindo o reforço prazeroso associado ao consumo e auxiliando na prevenção de recaídas — sendo indicada especialmente quando há dificuldade de resposta às intervenções exclusivamente psicossociais. Benzodiazepínicos em uso contínuo não têm indicação de manutenção fora do contexto da abstinência aguda, pelo risco de dependência cruzada; tricíclicos e antipsicóticos atípicos não são tratamentos de primeira linha para prevenção de recaída alcoólica.

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Questão 31

Um homem de 32 anos apresenta transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) grave desde a adolescência, com obsessões de contaminação e rituais de lavagem que ocupam várias horas do dia. Apesar de tratamento adequado com dois diferentes inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) em doses máximas e psicoterapia cognitivo-comportamental com exposição e prevenção de resposta, mantém sintomas incapacitantes. Considerando estratégias terapêuticas para o tratamento do TOC resistente, assinale a alternativa correta.

AA troca para antidepressivos tricíclicos não serotoninérgicos constitui estratégia de primeira linha após falha de ISRS.
BO uso isolado de benzodiazepínicos apresenta eficácia comprovada na redução sustentada dos sintomas obsessivo-compulsivos.
CA interrupção do tratamento farmacológico e manutenção exclusiva da psicoterapia é a conduta preferencial nos casos resistentes.
DA potencialização com antipsicóticos atípicos pode reduzir sintomas em parte dos pacientes com TOC resistente ao uso de ISRS.
Resposta: D

No TOC resistente a pelo menos dois ISRS em dose máxima associados a psicoterapia baseada em exposição e prevenção de resposta bem conduzida, a estratégia com maior respaldo de evidência é a potencialização com antipsicóticos atípicos em baixas doses (como risperidona ou aripiprazol), eficaz em uma parcela desses pacientes. Tricíclicos não serotoninérgicos não constituem primeira linha nesse cenário; benzodiazepínicos isolados não têm eficácia sustentada comprovada sobre os sintomas obsessivo-compulsivos; e a suspensão total da farmacoterapia não é a conduta preferencial diante de sintomas incapacitantes persistentes.

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Questão 32

Um homem de 56 anos é levado ao pronto-socorro por familiares com início agudo de agitação psicomotora intensa, confusão mental, febre (39 °C), rigidez muscular generalizada, instabilidade autonômica e elevação importante de creatinoquinase. Há relato de uso recente e escalonamento rápido de antipsicótico de alta potência. Considerando o diagnóstico e o manejo inicial mais adequado em emergências psiquiátricas, assinale a alternativa correta.

ATrata-se de delirium por abstinência alcoólica, cujo tratamento de escolha baseia-se exclusivamente em benzodiazepínicos em altas doses.
BO quadro caracteriza reação extrapiramidal aguda simples, sendo suficiente o uso de anticolinérgicos orais.
CO quadro é compatível com síndrome neuroléptica maligna, cuja conduta inicial inclui suspensão imediata do antipsicótico, suporte clínico intensivo e manejo das complicações sistêmicas.
DCorresponde a episódio maníaco grave, no qual a manutenção do antipsicótico em dose elevada é a conduta prioritária.
Resposta: C

A tétrade de rigidez muscular generalizada, hipertermia, instabilidade autonômica e alteração do estado mental, associada a elevação significativa de CK e a uso recente/escalonamento de antipsicótico de alta potência, é característica de síndrome neuroléptica maligna — emergência psiquiátrica potencialmente fatal. A conduta inicial exige suspensão imediata do agente antipsicótico, suporte clínico intensivo (hidratação vigorosa, resfriamento, correção de distúrbios hidroeletrolíticos) e manejo ativo das complicações sistêmicas (rabdomiólise, insuficiência renal aguda), podendo-se considerar agentes específicos como dantrolene ou bromocriptina em casos mais graves.

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Questão 33

Uma mulher de 39 anos apresenta ataques de pânico inesperados, há cerca de um ano, seguidos de preocupação persistente com novas crises e comportamentos de evitação. Iniciou tratamento adequado com inibidor seletivo da recaptação de serotonina (ISRS), obtendo redução parcial da frequência dos ataques, mas mantém medo intenso das sensações corporais associadas às crises, interpretando-as como perigosas. Considerando modelos psicopatológicos e implicações terapêuticas do transtorno do pânico, assinale a alternativa correta.

AA interpretação catastrófica das sensações corporais é um mecanismo central do transtorno do pânico e constitui alvo fundamental da terapia cognitivo- comportamental.
BO medo das sensações físicas ocorre apenas durante os ataques de pânico e não influencia a manutenção do transtorno.
CA presença de evitação persistente exclui o diagnóstico de transtorno do pânico e indica transtorno de ansiedade generalizada.
DA redução parcial da frequência das crises com ISRS indica que intervenções psicoterápicas não agregam benefício clínico adicional.
Resposta: A

O modelo cognitivo do transtorno do pânico postula que a interpretação catastrófica de sensações corporais benignas (palpitações, tontura, dispneia) como sinal de perigo iminente (infarto, "enlouquecer", morte) é o mecanismo central que perpetua o ciclo de ansiedade antecipatória e comportamentos de evitação. Esse mecanismo é o principal alvo das técnicas de reestruturação cognitiva e exposição interoceptiva da terapia cognitivo- comportamental, sendo especialmente relevante quando há resposta apenas parcial à farmacoterapia isolada, como no caso descrito.

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Questão 34

Um homem de 76 anos, internado por fratura de fêmur, evolui no pós-operatório com início agudo de desatenção, flutuação do nível de consciência, inversão do ciclo sono–vigília e alucinações visuais. Apresenta agitação psicomotora que coloca em risco sua própria segurança. Considerando o manejo do delirium em ambiente hospitalar, qual é a conduta mais adequada?

AIniciar benzodiazepínico como tratamento de primeira linha, independentemente da etiologia do delirium.
BIdentificar e tratar fatores precipitantes, instituir medidas não farmacológicas de reorientação e, se necessário para controle da agitação, utilizar antipsicótico em baixa dose pelo menor tempo possível.
CManter contenção física contínua como estratégia principal até resolução completa do quadro confusional.
DPostergar intervenções até estabilização cirúrgica completa, pois o delirium é autolimitado.
Resposta: B

O manejo do delirium hospitalar prioriza a identificação e correção dos fatores precipitantes (dor, infecção, distúrbios metabólicos, fármacos, imobilidade, privação sensorial), associada a medidas não farmacológicas de reorientação (relógio, calendário, presença de familiares, restabelecimento do ciclo sono-vigília). O uso de antipsicótico em baixa dose fica reservado a casos de agitação com risco à segurança do próprio paciente ou de terceiros, pelo menor tempo possível. Benzodiazepínicos não são primeira linha no delirium por outras causas (exceto abstinência de álcool/benzodiazepínicos), pelo risco de piorar a confusão; contenção física contínua e postergação de intervenções não são condutas apropriadas.

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Questão 35

Um homem de 47 anos, com transtorno depressivo maior recorrente, é atendido no pronto-socorro após relatar ideação suicida ativa nas últimas semanas. Refere desesperança intensa, insônia terminal e sensação de ser um "peso" para a família. Nega tentativa recente de suicídio, mas possui histórico de tentativa grave, há cinco anos. Considerando fatores clínicos associados ao risco de suicídio e princípios de avaliação em emergências psiquiátricas, assinale a alternativa correta:

AA presença de ideação suicida atual associada à desesperança, tentativa prévia e transtorno depressivo maior configura alto risco de suicídio, independentemente da ausência de tentativa recente.
BA ausência de plano suicida estruturado reduz o risco a um nível baixo, dispensando avaliação psiquiátrica especializada.
CO risco de suicídio é determinado principalmente pela gravidade dos sintomas depressivos no momento da avaliação, sendo o histórico passado pouco relevante.
DPacientes que verbalizam ideação suicida tendem a apresentar menor risco do que aqueles que não relatam tais pensamentos, não necessitando de acompanhamento psiquiátrico.
Resposta: A

A combinação de ideação suicida ativa, desesperança intensa, tentativa prévia grave e transtorno depressivo maior em curso constitui perfil de alto risco de suicídio — a história de tentativa prévia é um dos preditores mais robustos de tentativa futura e de suicídio consumado, independentemente de não haver tentativa recente. Esse conjunto de fatores exige avaliação psiquiátrica especializada e medidas de segurança imediatas, não devendo ser minimizado pela ausência de plano estruturado no momento da avaliação.

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Questão 36

Uma mulher de 45 anos apresenta transtorno depressivo recorrente, com três episódios prévios de moderados a graves, sendo dois deles associados a prejuízo funcional importante. Evoluiu com remissão completa após tratamento antidepressivo adequado no episódio atual. Considerando o manejo do tratamento de manutenção do transtorno depressivo recorrente, assinale a alternativa correta.

AReduzir gradualmente a dose do antidepressivo logo após a remissão, independentemente do número de episódios prévios.
BManter o antidepressivo na mesma dose eficaz utilizada na fase aguda por tempo prolongado, visando reduzir o risco de recorrência.
CSubstituir o antidepressivo por benzodiazepínico em longo prazo, como estratégia preventiva de novos episódios.
DSuspender o tratamento farmacológico após a remissão e indicar apenas acompanhamento psicoterápico.
Resposta: B

Em transtorno depressivo recorrente com três ou mais episódios, especialmente com prejuízo funcional associado, as diretrizes recomendam tratamento de manutenção prolongado — frequentemente por tempo indefinido — mantendo a mesma dose eficaz utilizada na fase aguda, já que a redução de dose associa-se a maior risco de recorrência. Não há indicação de substituir o antidepressivo por benzodiazepínico (sem eficácia antidepressiva sustentada e com risco de dependência) nem de suspender precocemente o tratamento farmacológico nesse perfil de recorrência.

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Questão 37

Um adolescente de 14 anos, com diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) nível 2 de suporte, apresenta episódios frequentes de agressividade dirigida a cuidadores, principalmente diante de frustrações e mudanças na rotina. Avaliação clínica exclui dor, infecção, epilepsia ativa ou efeitos adversos medicamentosos. Intervenções comportamentais estruturadas foram implementadas de forma adequada, com resposta insuficiente. Considerando o manejo ambulatorial do comportamento agressivo associado ao TEA, assinale a alternativa correta.

ABenzodiazepínicos devem ser utilizados como tratamento de primeira linha, devido à sua efetividade e ao perfil favorável de segurança em pacientes com TEA.
BAntidepressivos ISRS constituem a principal estratégia farmacológica para controle da agressividade no TEA, independentemente de comorbidades.
CA persistência de comportamento agressivo indica necessariamente falha diagnóstica e exclusão do transtorno do espectro autista.
DO uso criterioso de antipsicóticos atípicos, como risperidona, pode ser indicado para redução da agressividade, com monitorização rigorosa de efeitos adversos.
Resposta: D

Após falha de intervenções comportamentais estruturadas adequadamente implementadas e afastadas causas orgânicas (dor, epilepsia, efeitos adversos medicamentosos), o uso criterioso de antipsicóticos atípicos como a risperidona — com indicação estabelecida para irritabilidade associada ao autismo — é opção farmacológica com respaldo de evidência, exigindo monitorização rigorosa de efeitos adversos metabólicos e extrapiramidais. Benzodiazepínicos não apresentam perfil de segurança favorável nessa população (risco de desinibição paradoxal), e os ISRS não constituem a principal estratégia farmacológica para agressividade nesse contexto.

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Questão 38

Durante a realização de uma perícia psiquiátrica judicial, o médico perito é solicitado a avaliar a capacidade de um indivíduo para compreender e determinar-se de acordo com esse entendimento no momento da prática de um ato ilícito. Qual é considerado o principal objeto dessa avaliação?

AO diagnóstico psiquiátrico atual para fins terapêuticos.
BA periculosidade futura do agente.
CA imputabilidade penal do indivíduo no momento do fato.
DVerificação de necessidade imediata de internação psiquiátrica involuntária.
Resposta: C

O objeto central da perícia psiquiátrica voltada à responsabilização penal é determinar se, no momento do fato, o periciando tinha capacidade de entender o caráter ilícito de sua conduta e de determinar-se de acordo com esse entendimento — o critério biopsicológico consagrado no art. 26 do Código Penal brasileiro, que combina a verificação de um substrato biológico (doença mental ou desenvolvimento mental incompleto/retardado) com a repercussão funcional sobre a compreensão e a vontade ao tempo da ação ou omissão. Trata-se de análise retrospectiva e funcional referida ao momento do delito, distinta de diagnóstico para fins terapêuticos, de avaliação de periculosidade futura ou de indicação de internação involuntária.

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Questão 39

Em 2011, o Ministério das Saúde publicou a Portaria No. 3088, que instituiu a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), com o objetivo de organizar o tratamento de pessoas com transtornos mentais e relacionados ao uso de substâncias psicoativas. Nesse contexto, qual dos serviços abaixo compõe a RAPS, de acordo com a referida Portaria ministerial No. 3088/2011?

AAmbulatório de saúde mental.
BHospital-dia.
CHospital psiquiátrico.
DUnidade de acolhimento.
Resposta: D

A Unidade de Acolhimento é expressamente listada como ponto de atenção da RAPS no componente "atenção residencial de caráter transitório" (art. 9º da Portaria GM/MS nº 3.088/2011), destinada a pessoas com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas que demandem acompanhamento terapêutico e protetivo transitório (até 6 meses de permanência). Hospital psiquiátrico tradicional, hospital-dia e o modelo genérico de ambulatório de saúde mental não constam como pontos de atenção explicitamente estabelecidos pelo texto original da Portaria 3.088/2011, que organiza o cuidado em saúde mental em torno de uma rede substitutiva de base territorial e comunitária (atenção básica, CAPS, urgência/emergência, atenção residencial de caráter transitório, atenção hospitalar em leitos de saúde mental em hospital geral, estratégias de desinstitucionalização e reabilitação psicossocial).

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Questão 40

Um homem de 35 anos apresenta padrão persistente, desde o início da vida adulta, de desconfiança generalizada, interpretação de intenções alheias como maliciosas, hipersensibilidade a críticas e tendência a guardar rancor. Não há história de episódios psicóticos, transtornos do humor ou uso de substâncias. Mantém funcionamento ocupacional estável, porém com prejuízo significativo nas relações interpessoais. Considerando os critérios diagnósticos e a psicopatologia do quadro relatado, assinale a alternativa correta.

AO quadro é compatível com transtorno de personalidade paranoica, caracterizado por padrão duradouro de desconfiança e suspeita sem base delirante estruturada.
BA presença de desconfiança persistente indica, por definição, transtorno delirante persecutório.
CA ausência de prejuízo ocupacional exclui o diagnóstico de transtorno de personalidade.
DA presença de traços paranoides restritos ao ambiente interpessoal indica necessariamente transtorno bipolar do espectro psicótico.
Resposta: A

O padrão persistente e generalizado de desconfiança e suspeita, presente desde o início da vida adulta, sem estruturação delirante e sem episódios psicóticos, transtornos do humor ou uso de substâncias, com prejuízo predominantemente nas relações interpessoais e funcionamento ocupacional preservado, é compatível com transtorno de personalidade paranoica (cluster A). Distingue-se do transtorno delirante persecutório pela ausência de delírio estruturado e de quadros psicóticos pela ausência de sintomas psicóticos floridos.

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Referências Gerais

  1. Brasil. Código Penal (Decreto-Lei 2.848/1940), arts. 26–28, 59–60.
  2. Brasil. Código de Processo Penal (Decreto-Lei 3.689/1941), arts. 149–154, 159.
  3. Brasil. Código Civil (Lei 10.406/2002), arts. 3º, 4º e 15 (com alterações da Lei 13.146/2015).
  4. Brasil. Lei 10.216/2001 (Lei da Reforma Psiquiátrica).
  5. Brasil. Lei 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência).
  6. Brasil. Lei 7.713/1988, art. 6º, XIV (isenção de imposto de renda por moléstia grave).
  7. Brasil. Lei 8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), art. 104 e art. 197-C.
  8. Brasil. Lei 7.210/1984 (Lei de Execução Penal), cessação de periculosidade.
  9. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica — Resolução CFM nº 2.217/2018.
  10. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1.638/2002 (prontuário médico).
  11. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.056/2013.
  12. World Health Organization. ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics: QD85 Burn-out. 2019/2022.
  13. American Psychiatric Association. DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  14. Taborda JGV, Chalub M, Abdalla-Filho E (orgs). Psiquiatria Forense. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2012.
  15. França GV. Medicina Legal. 11ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
  16. Bitencourt CR. Tratado de Direito Penal — Parte Geral. São Paulo: Saraiva, 2020.
  17. Appelbaum PS. Assessment of Patients' Competence to Consent to Treatment. N Engl J Med. 2007;357(18):1834–1840.
  18. Maslach C, Leiter MP. Understanding the burnout experience. World Psychiatry. 2016;15(2):103–111.
  19. Bianchi R, Schonfeld IS, Laurent E. Burnout-depression overlap: A review. Clin Psychol Rev. 2015;36:28–41.
  20. Resnick PJ. Malingering of Posttraumatic Disorders. In: Rogers R (ed). Clinical Assessment of Malingering and Deception. New York: Guilford Press, 2008.

Psiquiatria em Movimento · material elaborado para estudo dirigido de residência médica (R4) e prova de título em psiquiatria forense, a partir da prova e do gabarito oficial FMUSP / Tekyou Soluções (Processo Seletivo 2021). As justificativas apresentadas refletem o entendimento técnico consolidado na legislação e literatura citadas, com finalidade exclusivamente educacional.

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