Algoritmo de esquizofrenia
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Sumário
Algoritmo de esquizofrenia
O algoritmo do IPAP percorrido uma decisão por vez, com o texto original de cada nó e uma nota sobre o que a literatura posterior acrescentou — mais o fluxograma completo, redesenhado e com os nós clicáveis.
Algoritmo de esquizofrenia
Percorra o algoritmo do IPAP uma decisão por vez, com o texto original de cada caixa e uma nota sobre o que a literatura posterior acrescentou. O fluxograma completo fica logo abaixo — clicar em qualquer nó leva o navegador até ele.
Navegador passo a passo
Trilha das decisões
Considerar em cada etapa — os oito itens A–H
O algoritmo manda rever esta lista no nó 2 e em cada ponto subsequente do tratamento. Boa parte das refratariedades aparentes se desfaz aqui.
Avalie formalmente e registre. Entre os antipsicóticos, a clozapina é o único com ensaio dedicado ao desfecho e indicação regulatória específica para comportamento suicida recorrente na esquizofrenia e no transtorno esquizoafetivo — um risco suicida alto e persistente é, por si, argumento para considerá-la mais cedo, e não apenas a psicose refratária. Atenção ao caminho prático: a dispensação pelo SUS está vinculada aos critérios de refratariedade do PCDT, de modo que a antecipação por risco suicida pode exigir justificativa clínica circunstanciada ou via de acesso alternativa.
C-SSRS — rastreio de suicídio →Muda a conduta imediatamente e sai da lógica do algoritmo.
Catatonia: benzodiazepínico é a primeira linha (lorazepam, com titulação conforme a resposta); a ECT é a alternativa nos casos refratários, graves ou com risco vital. Evite antipsicótico enquanto houver catatonia ativa — pode agravá-la e precipitar síndrome neuroléptica maligna. Investigue causa orgânica, incluindo encefalite autoimune.
Catatonia maligna: febre e instabilidade autonômica sobre um quadro catatônico. Sobrepõe-se clinicamente à síndrome neuroléptica maligna, responde mal ao benzodiazepínico isolado e exige ECT precoce e suporte intensivo.
Síndrome neuroléptica maligna: emergência médica com mortalidade relevante — rigidez, hipertermia, disautonomia, rebaixamento do nível de consciência e CPK elevada. Suspenda imediatamente o antipsicótico, transfira para ambiente de suporte intensivo, hidrate, resfrie e monitore CPK, função renal (rabdomiólise) e estado hemodinâmico. Nos casos moderados a graves considere dantroleno, bromocriptina ou amantadina; a ECT é opção nos refratários.
Nos três casos, retomar antipsicótico exige espera, cautela e reavaliação da escolha.
Bush-Francis (catatonia) → Material sobre catatonia →Exige manejo próprio, de curto prazo — inclusive por via intramuscular e com benzodiazepínico associado quando necessário. É um paralelo ao algoritmo, não um degrau dele: resolvida a urgência, o paciente volta ao ponto em que estava.
Duas cautelas na via intramuscular: não associe olanzapina IM a benzodiazepínico parenteral — há relatos de sedação excessiva e depressão cardiorrespiratória fatais; sendo ambos necessários, respeite intervalo e monitore. E considere ECG/QTc ao usar haloperidol, sobretudo em doses repetidas.
Antes de chamar de agitação, descarte acatisia. O que muda é decisivo: na agitação psicótica costuma-se aumentar a dose do antipsicótico, e é exatamente isso que agrava a acatisia. Na acatisia a conduta é reduzir a dose, trocar o antipsicótico ou associar propranolol e/ou benzodiazepínico. Pergunte pela inquietação interna, não apenas observe o movimento.
Simpson-Angus (sintomas extrapiramidais) →A causa mais comum de “refratariedade” que não é refratariedade. Os critérios do TRRIP só consideram adequada a tentativa com adesão de pelo menos 80% das doses, documentada por ao menos duas fontes, e com dosagem plasmática do antipsicótico em pelo menos uma ocasião. Sem isso, uma tentativa fracassada não conta — e antipsicótico de ação prolongada passa a ser a resposta mais direta.
Reavalie o diagnóstico: sintomas de humor proeminentes e persistentes apontam para transtorno esquizoafetivo ou transtorno do humor com sintomas psicóticos. Diferencie ainda depressão pós-psicótica, sintomas negativos e efeito adverso do antipsicótico — as três se parecem e pedem condutas diferentes.
Piora o desfecho, reduz a adesão e confunde a avaliação de resposta. Uso ativo de estimulante ou de cannabis pode sustentar sintomas psicóticos que seriam atribuídos à falha do antipsicótico. Investigue antes de declarar a tentativa fracassada.
O primeiro episódio responde mais e a doses menores: comece baixo e evite dose alta por impaciência. Ainda assim, cerca de um quarto dos primeiros episódios acaba preenchendo critérios de refratariedade — o que reforça acompanhar a resposta com medida, e não com impressão.
Fase prodrômica é outra coisa. No estado mental de risco não há diagnóstico firmado e o algoritmo não se aplica: a maioria não converte para psicose. A recomendação atual é acompanhamento próximo, intervenção psicossocial e tratamento das comorbidades — antipsicótico não é conduta de rotina, ficando reservado a sintomas psicóticos francos ou risco elevado, com reavaliação frequente.
Sintomas extrapiramidais, acatisia, sedação, ganho de peso e alterações metabólicas, hiperprolactinemia e movimentos tardios. Intolerabilidade motiva troca, mas não conta como falha de eficácia — é a distinção que o nó 4 faz e que decide se o paciente caminha ou não para a refratariedade.
Monitore com calendário, não por impressão: peso e circunferência abdominal em toda consulta; pressão arterial, glicemia e lipidograma na linha de base, aos 3 meses e ao menos anualmente; prolactina quando houver sintomas (amenorreia, galactorreia, disfunção sexual); ECG/QTc na linha de base com ziprasidona e haloperidol ou diante de fator de risco; AIMS periódico para movimentos tardios.
AIMS — discinesia tardia →Fluxograma completo
Clique em qualquer nó para levar o navegador até ele. O nó em que você está fica destacado; os já percorridos ficam marcados.
Legenda das siglas
Atípicos — AMI = amissulprida; ARIP = aripiprazol; CLOZ = clozapina; OLANZ = olanzapina; QUET = quetiapina; RISP = risperidona; ZIP = ziprasidona.
Típicos — CHLOR = clorpromazina; FLU = flufenazina; HAL = haloperidol; THIO = tiotixena.
Outros — AD = antidepressivo; BZD = benzodiazepínico; ECT = eletroconvulsoterapia; IM = intramuscular; MS = estabilizador do humor.
FLU, THIO, AD, BZD, IM e MS constam da legenda do pôster original, mas se referem a quadros de detalhamento que não fazem parte deste fluxograma. Grafias atualizadas para a norma brasileira vigente: o original de 2004 traz “amisulprida” e “electroconvulsoterapia”.
Somente para uso por profissionais de saúde, não para uso por pacientes.
O que mudou desde 2004
Três pontos em que a prática se afastou do desenho original, e que valem a pena guardar:
- “Tratamento adequado” ganhou definição operacional. O consenso TRRIP (2017) fixou o que o algoritmo deixava em aberto nos nós 4 e 7: dose ≥ 600 mg/dia em equivalentes de clorpromazina, duração ≥ 6 semanas, ao menos duas tentativas com antipsicóticos diferentes, sintomas de gravidade ao menos moderada com redução < 20%, prejuízo funcional ao menos moderado, adesão ≥ 80% documentada por duas fontes e dosagem plasmática ao menos uma vez.
- A clozapina se guia por nível plasmático, não por miligramas. O nó 9 fala em “até 900 mg/dia por seis meses”. Hoje o que define uma chance justa é o nível de vale ≥ 0,35 mg/L, com resposta habitual entre 0,35 e 0,60 mg/L e risco crescente de toxicidade acima de 1 mg/L.
- O gargalo é o atraso, não a escolha do fármaco. Cerca de 30% dos pacientes preenchem critérios de refratariedade, e a refratariedade costuma poder ser firmada em torno de 12 semanas — mas o tempo médio em outros antipsicóticos antes da clozapina chega a 4 anos no Reino Unido, com faixas internacionais de 2 a 10 anos. Não há aqui dado brasileiro equivalente.
- A hierarquia “atípico primeiro” não se sustentou. O nó 3 põe os típicos como alternativa “se não estiver disponível” um atípico. Fora a clozapina, as diferenças de eficácia entre antipsicóticos são pequenas, e a escolha se faz pelo perfil de efeitos adversos, comorbidades, via de administração e preferência do paciente — o próprio PCDT afirma que todos, exceto a clozapina, podem ser usados sem ordem de preferência. Some-se o que não existia em 2004: paliperidona, lurasidona, asenapina, cariprazina, brexpiprazol, e um repertório bem maior de apresentações de ação prolongada.
Referências
- International Psychopharmacology Algorithm Project. Schizophrenia Algorithm. © 2004. ipap.org.
- Howes OD, McCutcheon R, Agid O, et al. Treatment-Resistant Schizophrenia: Treatment Response and Resistance in Psychosis (TRRIP) Working Group Consensus Guidelines on Diagnosis and Terminology. Am J Psychiatry. 2017;174(3):216-229.
- Brasil, Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas — Esquizofrenia. Portaria SAS/MS nº 364, 2013 (e revisões).
- Flanagan RJ, Gee S, Belsey S, Couchman L, Lally J. Therapeutic monitoring of plasma clozapine and N-desmethylclozapine (norclozapine): practical considerations. BJPsych Advances. 2023;29:92-102. doi:10.1192/bja.2022.71
- Royal College of Psychiatrists. Clozapine for treatment-resistant schizophrenia: the case for timely use. Position statement PS01/26.
- Meltzer HY, Alphs L, Green AI, et al. Clozapine treatment for suicidality in schizophrenia: International Suicide Prevention Trial (InterSePT). Arch Gen Psychiatry. 2003;60(1):82-91.
- Kane JM, Agid O, Baldwin M, Howes O, Lindenmayer JP, Marder S, Olfson M, Potkin SG, Correll CU. Clinical guidance on the identification and management of treatment-resistant schizophrenia. J Clin Psychiatry. 2019;80(2):18com12123. doi:10.4088/JCP.18com12123